os-ladroes-de-cisneAs vidas de pintores de talento e dedicação ilustram um romance que se alterna entre os tempos atuais e o século XIX. Em Os Ladrões de Cisne, livro de Elizabeth Kostova, o destaque está no Impressionismo, nos detalhes dos quadros que narra transportados para seu texto, num amor que dura séculos e é difícil de explicar. Lançada nova edição pela editora Intrínseca, o romance oscila entre a beleza de um amor atemporal e a monotonia da narração de uma vida perturbada, tentando ser desvendada por pessoas que dela fizeram parte.

O principal narrador dessa trama é o psiquiatra Andrew Marlow, que tem em suas mãos um paciente peculiar: Robert Oliver, um pintor norte-americano renomado que foi preso após tentar atacar um quadro no National Gallery, em Washington. Marlow, também um pintor nas horas vagas, se interessa pelo estranho caso, mas consegue apenas algumas palavras de seu paciente. Robert entra em um estado de profundo silêncio, passando seus dias internado apenas pintando o rosto da mesma mulher e relendo incessantemente um maço de cartas de aparência antiga. Para desvendar o que atormenta seu paciente, Marlow decide usar de um método que pode comprometer sua carreira: falar com as mulheres que fizeram parte da vida do pintor.

Dando destaque aos trechos narrados em primeira pessoa por Marlow, Elizabeth Kostova monta o romance com retalhos de relatos das mulheres com quem Robert se relacionou, todas também pintoras. Alguma coisa em seu comportamento e no retrato da mulher que ele pinta com tanta obsessão as afastou de sua vida, mas sua presença para elas é tão marcante que é impossível ignorar ajuda. Assim, cada uma faz seu relato também em primeira pessoa ao médico, e mais do que falar apenas de seu paciente, revelam informações de si mesmas, criando uma aproximação estranha entre elas e Marlow. Cada narrador de Elizabeth é extremamente detalhista, e apesar das boas descrições de quadros, lugares e pessoas, o leitor se questiona se tantos detalhes são realmente necessários na construção desse romance. Ele imagina, principalmente, se ele seria menos maçante sem tanto apreço nas descrições. Mas como personagens pintores, o destaque ao detalhe é coerente.

Intercaladas a esses capítulos de diferentes narradores, Elizabeth também inclui a transcrição das cartas francesas que seu protagonista tanto lê, datadas do século XIX, que revelam o relacionamento entre dois outros pintores: Béatrice de Clerval e Olivier Vignot, tio de seu marido. A leitura do romance se sustenta na curiosidade do leitor em descobrir qual a relação das cartas com Robert Oliver, com o retrato da mulher que tanto lhe ocupa os dias, e finalmente com o quadro que tentou atacar no início dessa história. É essa curiosidade que o impele a continuar lendo as mais de 500 páginas desse romance.

Apesar do encerramento pouco interessante e aparentemente precipitado, como se a autora não quisesse incluir mais páginas ao livro já grande para finalizá-lo melhor, Os Ladrões de Cisne apresenta ainda assim uma emocionante história de amor, dirigido tanto a um indivíduo quanto à arte. Seus artistas que existem apenas na ficção poderiam ser reais, pois os detalhes que usa para descrever seus quadros despertam a vontade de vê-los na tela, pendurados em uma galeria, expostos para todos de verdade, e não apenas para as personagens de um livro que nunca sequer existiram.