palestina-nacao-ocupadaOs conflitos entre palestinos e israelenses são notícia nos jornais de horário nobre há muitos anos. Eles duram tanto tempo que a paz entre os dois lados é um sonho que dizem nunca se concretizar. A guerra entre Palestina e Israel é algo que vai muito além de um livro onde se baseia toda uma religião, mas também afeta a identidade nacional de cada um dos cidadãos que vivem nas áreas de conflito e nos assentamentos de refugiados. Esses conflitos, iniciados com o movimento sionista – nacionalismo judeu – no início do século XX, perduram até hoje e já são tema das aulas de geografia de algumas gerações. Mas o que essas aulas ou as habituais notícias nos jornais não conseguiram explicar – como tudo isso começou? –, Joe Sacco o faz de maneira simples e eficiente – e regada a muito chá.

Jornalista maltês especializado em cobrir áreas de conflito, Sacco passou dois meses no início da década de 1990 – um dos vários períodos intensos desse embate entre nações – em Jerusalém, na Cisjordânia e na Faixa de Gaza para ver e contar a situação dos Palestinos e a visão de ambos os lados dessa relação turbulenta. Sua intenção não é ser parcial ou educativo, mas ser sincero no retrato do que viu usando letras e desenhos. Sim, desenhos. Sacco é quem muitos chamam de o “precursor do Jornalismo em Quadrinhos”, e Palestine, aqui no Brasil dividido em dois volumes pela editora Conrad, é uma bela obra que abre os olhos do leitor para a situação da região. Em Palestina: Uma Nação Ocupada, o jornalista vai atrás de personagens reais que tenham o que contar sobre ataques, invasões e perdas que enfrentaram durante todo o tempo de vida nesses territórios ocupados.

O que difere Joe Sacco dos outros jornalistas não é apenas o desenho, mas a sua inserção dentro do próprio relato. Muitos jornalistas o fazem em texto, enquanto outros tem o talento de se tornarem invisíveis nas histórias que contam – como Gay Talese fez em Honra Teu Pai. Mas o que movimenta Palestina é o próprio Sacco, a sua presença nas regiões ocupadas, nas casas e estabelecimentos de palestinos e israelenses, e a visão dele mesmo daquilo que observa. Suas opiniões e idiossincrasias estão impregnadas em cada quadro do livro. A narração que ele faz geralmente inclui o que ele espera encontrar em sua viagem a Israel, torcendo a cada momento que algum conflito estoure para ter gritos, sangue e correria o bastante para poder registrar. E tudo é colocado no papel na forma de desenho, com certo ar caricato que acentua as principais características de cada personagem.

O que Sacco faz é reunir relatos como se fosse uma colcha de retalhos, com alguns depoimentos durando até uma página apenas, mas que contribuem para o objetivo de mostrar a realidade palestina. Desses relatos fazem parte os depoimentos de pais que tiveram seus filhos arrancados de casa, suas oliveiras cortadas, suas casas revistadas e derrubadas. Também traz ex-presidiários falando das torturas impostas pelas autoridades israelenses, a vida dos palestinos nos campos refugiados e, o mais importante, a opinião dessas personagens sobre a situação política que presenciam. Em Palestina: Uma Nação Ocupada, o leitor se depara tanto com a esperança por um acordo de paz e a retirada de Israel dos territórios palestinos, quanto com a aceitação do conflito, a certeza de que ele nunca terá fim.

Palestina: Uma Nação Ocupada não é relato definitivo dos conflitos entre árabes e judeus, é só uma parte dessa história que tem muitos outros lados para serem explorados – que estão presentes em outras obras de Joe Sacco. Entretanto, é uma ótima obra para entrar nesse assunto e entender, pelo menos superficialmente, o início desses conflitos. Através dos desenhos de Sacco, o leitor tem acesso à vários depoimentos daqueles que vivem os dramas diários de uma nação ocupada, e não à informações narradas apenas por uma voz, aquela do jornalista. Esse jornalismo é mais atraente, sincero – pois mostra as convicções e os objetivos do jornalista – e tem mais qualidade do que muitas coberturas de grandes jornais que vemos por aí.