rei-lear-mangaNão sou contra adaptações de grandes obras da literatura para versões mais “fáceis de ler”, voltadas para os jovens. Sou da opinião de que um livro adaptado, seja com linguagem mais acessível ou então resumido, pode ser a porta de entrada para o leitor ter contato com a obra completa, que se não fosse a versão curta, poderia nem vir a conhecer. Claro que essa é uma visão otimista e que não acompanha todos os leitores, mas eu mesma me interessei pela obra completa de determinado autor através de um resumo de seu trabalho.

Já estou na idade em que encarar obras mais complexas, com linguagem diferente e mais densa, não é nenhum grande desafio. Mas isso não significa que eu tenha que deixar uma dessas adaptações de lado quando caem em minhas mãos. É o que aconteceu com a versão em mangá de Rei Lear, obra consagrada de William Shakespeare, trazida ao Brasil pela editora JBC – conhecida por publicar as séries em mangá que fazem a cabeça dos jovens, assim como eu consumi muito esse tipo de leitura na minha adolescência.

Não tenho como comparar a obra original com essa adaptação justamente por não ter lido a peça escrita por Shakespeare, mas ao bater os olhos pela primeira vez no mangá o leitor logo percebe que ele está bem longe da linguagem arcaica usada na época. Assim como transpor a peça para desenho é uma forma de atrair os jovens leitores, os próprios diálogos são alterados para uma fala mais simples, embora tentem manter o ar de realeza.

No que diz respeito ao drama da peça, o mangá não fica longe do que deve ser a dramaticidade do teatro. Os mangás são bem conhecidos pelas reações exageradas, caricatas, cheias de drama, caras e bocas. As filhas mais velhas de Rei Lear, que divide suas terras conforme o amor delas, são retratadas como feias, rudes, uma imagem que condiz com a personalidade malévola de Goneril e Regan. Já Cordélia, a caçula, tem o semblante bonito e sereno, o bom e velho clichê da mocinha dos gibis japoneses.

A adaptação para mangá de Rei Lear está bem longe da grandeza da obra original, e não deve nunca ser tida como leitura definitiva. O que se espera ao indicar esse tipo de leitura é atrair a atenção dos jovens, e também que eles evoluam daí para obras mais densas, que descubram a real arte por trás dos dramas do rei traído por suas filhas ambiciosas.