delicadamente-feioNa vida cultuamos o que é belo, aquilo que possa ser admirado, que seja agradável e tão interessante que é impossível desviar os olhos. Diz-se também que ignoramos o que é feio, ou nos esforçamos por deixar passar em branco aquilo que nos embrulha o estômago e que pode se fixar em nossa mente o bastante para nos tirar o sono. Mas há coisas que, mesmo desprovidas de beleza, são atraentes o bastante para que nosso olhar recaia sobre ela e a mente fique ocupada com esse interesse que está longe de ser perturbador. Ou até sejam, mas em doses menores que conseguimos digerir.

Delicadamente Feio, lançamento da editora Dublinense e estreia de Ricardo Silveira na literatura, pretende falar dessas pequenas coisas presentes em nosso cotidiano, mas ignorados por conta de sua feiúra. A intenção é mostrar personalidades e ações que estão longe de serem belas, sejam elas físicas, como o rosto de uma pessoa, ou morais, alguma atitude pouco louvável. Ricardo Silveira é mais um dos autores da safra de oficinas literárias ministradas por Charles Kiefer, e assim como outros que exercitam sua escrita, seu primeiro livro contém os textos ali trabalhados. Mas isso não significa que sejam excelentes por terem a aprovação do professor.

Os doze contos de Silveira podem até ameaçar um tema interessante, que toque em algum tabu e revele ao leitor alguma profundidade, mas os textos não vão muito além da rasa descrição de ações e (poucos) pensamentos das personagens. A mulher feia que droga homens à procura de sexo, o homem que mata o garoto que tenta salvar, ou aquele que adivinha a virgindade das mulheres com apenas um olhar não vão fundo o bastante em suas próprias composições para cativar o leitor. O autor investe em diálogos, mas esses não são elaborados o suficiente para que representem uma determinada voz e dêem vida a uma personalidade.

Durante a leitura, nota-se um respeito pelas ações das personagens. Mas é justamente essa preocupação em contar rapidamente o que elas fizeram e sentiram que tira a emoção dos contos. Em “Açúcar, Farinha e Gesso”, por exemplo, o leitor não consegue notar as emoções da protagonista ao ler seus primeiros livros, ou o asco pelo trabalho de enfermeira de um idoso e abusos que sofre de outro personagem, nem mesmo a alegria de conhecer sua autora favorita, Clarice Lispector. O texto diz que ela rio, que chorou, que sentiu nojo, mas não consegue passar de verdade essa emoção ao leitor.

Delicadamente Feio não é uma leitura desagradável ou funesta, mas não chegou ao patamar de livro para ficar na memória. Os textos curtos podem até simular uma boa história ou outra, mas não tem força o suficiente para que sejam considerados uma estreia estupenda. Só histórias para ler em poucos minutos e fazer o tempo passar.