guerraEm outubro de 2001, depois dos ataques de 11 de setembro que destruíram o World Trade Center, parte do Pentágono e ainda derrubaram na Pensilvânia um dos aviões seqüestrados por terroristas, os Estados Unidos invadiram o Afeganistão. O objetivo era encontrar Osama Bin Laden, que se acreditava estar escondido no país, destruir a Al-Quaeda e o talibã. A ocupação do exército norte-americano no Afeganistão permanece, mas já está programada o início da retirada das tropas ainda esse ano. O que diferencia essa guerra das outras travadas pelos EUA está nas pessoas que nela lutaram. Diferente da Segunda Guerra Mundial, os soldados combatentes não eram convocados, mas se voluntariavam querendo lutar por seu país, ou apenas dar um rumo à suas vidas já desgraçadas.

São esses jovens soldados o material do livro Guerra, do jornalista Sebastian Junger. O livro é fruto de cinco viagens do jornalista à região do Vale do Korengal, uma das áreas com mais conflitos entre o exército norte-americano e o talibã. Do material reunido por ele e pelo fotógrafo Tim Hetherington – morto em abril desse ano na Líbia – entre junho de 2007 e 2008 para a revista Vanity Fair, ainda foram produzidos um documentário, Restrepo, e finalmente Guerra. Relendo depoimentos e revendo imagens, vídeos e gravações, Junger divide seu livro em três partes para abarcar todo o ambiente da guerra e os seus efeitos psicológicos sobre os soldados, além de suas motivações para combater: Medo, Matança e Amor.

Junger basicamente faz curtos relatos de combates, apresentando suas personagens e detalhando armas, veículos e posições. Outro ponto realçado pelo autor são as condições de clima e geografia do Vale do Korengal, uma região com montanhas altas, de subidas íngremes que os soldados tinham que enfrentar diariamente, e com posições muitas vezes favoráveis para emboscadas dos talibãs. O calor e frio extremo eram outro fator agravante da região que já contava com escassez de recursos, fazendo das acomodações dos soldados serem tão ou mais precárias que as dos habitantes locais. A principal fonte desses relatos é O’Byrne, um jovem que se voluntariou no exército depois de ser enviado à uma instituição correcional após receber um tiro do próprio pai, e viu na guerra uma chance de melhorar sua vida.

Com base em teorias psicológicas sobre os efeitos da guerra em seus combatentes, Junger traça o perfil dos jovens norte-americanos que tem suas vidas arriscadas diariamente, sobrevivendo muitas vezes por centímetros – casos de projéteis que erram por pouco os seus alvos não são raros. Contudo não é isso o que mete medo nos soldados durante a guerra, mas sim a perspectiva de se ver sozinho, de não cumprir o seu dever, de ser capturado ou, pior, do tédio. O jornalista mostra ao leitor o quanto a espera pode ser destrutiva e de como isso pode enlouquecer mais os soldados do que estar sob fogo durante mais de uma hora de combate. No relato de Junger, os soldados torcem por um tiro sequer que possa ameaçá-los para poderem entrar em ação, abandonar o ócio e a mente e se concentrar apenas em fazer o que foram treinados para fazer: atirar.

Sebastian Junger revela também a complexidade da relação entre esses soldados, que é violenta, mas ao mesmo tempo fiel e parceira, que cria laços inseparáveis entre eles. Esses jovens não estão lá para serem heróis, mas sim para protegerem seu grupo. A perspectiva de ver um amigo morrer é mais dolorosa para eles do que se perderem a própria vida, e as condições tensas de sobrevivência no Vale do Korengal só reforçam o “amor” que um soldado tem pelo outro. Uma predisposição para dar a própria vida para o bem do grupo que não é justificada pelo heroísmo, mas pelo argumento “ele faria o mesmo por mim”. A experiência da guerra para esses jovens é tão intensa que eles não conseguem se imaginar voltando para a vida normal – que certamente é marcada por traumas causados pela guerra –, o que faz com que muitos voltem para o exército procurando viver novamente esse momento cheio de adrenalina, o mais emocionante de suas vidas.

Guerra não versa sobre a legitimidade da invasão dos EUA no Afeganistão ou fala de suas políticas. O que Sebastian Junger se propôs a fazer é mostrar a vida desses soldados, a marca que a guerra deixa neles, contar a própria experiência de estar em meio a combates e pessoas com a vida limitada a tiros e muitas horas de espera pelo próximo ataque – ou pela incerteza se o ataque realmente acontecerá. Esse sentimento de angústia e a adrenalina por trás dos combates é bem representado por Junger, embora as descrições de armas possam parecer tediosas em alguns momentos. No fim, Guerra é um bom livro para entender um pouco do que um soldado sente, da força que a guerra exerce sobre eles e as motivações para que arrisquem suas tão jovens vidas em nome de um país.