poemas-famintosSensações e sonhos são os materiais principais para as poesias. Amor é o sentimento que muitos atribuem a ela como forma de representação, mas ainda há como falar de sofrimentos – sejam ligados ao romance ou não –, de expectativas e, porque não, do próprio cotidiano. Com temas que giram em torno da vida no campo e suas dificuldades, Valmor Bordin estrutura os textos de Poemas Famintos, livro publicado pela editora Dublinense. Filho de agricultores, Bordin trouxe para a poesia a vivência no interior e a fonte de sustento de sua família: o vinho. Esse sustento é o cerne dos poemas que versam sobre o cultivo, a colheita e a venda dos produtos da terra, mas não se contentam apenas a mostrar de forma rimada esse cotidiano. O campo, algumas vezes, é apenas uma alegoria para tratar de questões maiores sobre a vida.

Os versos de Bordin são breves. Os primeiros poemas, dedicados aos pais, retornam aos tempos de juventude do autor, em que o sucesso de uma colheita é garantia da sobrevivência da família, e os dias giram em torno da apreensão de se conseguir uma boa safra. O vinho, aqui, tem importância maior do que trazer dinheiro para a casa. Ele traz a vida para aqueles que dele dependem. Com esses versos, Bordin evoca as texturas e odores daquela época, lembrando os trejeitos dos pais em cada tarefa que faziam e a importância do trabalho de pessoas simples.

Amor, dor, sofrimento, sonhos e complicações tanto da vida no campo quanto na urbana são explorados pelo autor. Em vários poemas, elementos da natureza são utilizados para representar ciclos da vida, da concepção ao nascimento, crescimento e morte. Ou até tratam da vida interrompida, a rejeição de um filho concebido contra a vontade da mulher, como um sonho que é freado pelas imposições de uma vida pobre, sem muitos ganhos. Talvez por isso os poemas de Bordin sejam mais direcionados para ele mesmo, como que um álbum pessoal de palavras para relembrar um tempo de dificuldades que não existe mais – o autor, apesar dos poucos recursos na juventude, se formou em medicina e trabalha como psiquiatra.

Os temas que Valmor Bordin escolheu para seu livro às vezes se repetem, assim como alguns versos são “reciclados” em novos poemas cujos significados podem ser levemente diferentes. Para o leitor fica a impressão de enfado causado pela repetição, como se os poemas não evoluíssem totalmente para outros níveis. Mas é visível a intimidade do autor com as palavras para contar através da poesia essas pequenas histórias. Apesar do pouco gosto que tenho pela poesia, é certo Bordin encontrou um belo modo de homenagear suas raízes e voltar a elas, experimentando a combinação variada de versos para em alguma página tocar o leitor.