uma-historia-de-sarajevoNo final dos anos 1980 a Iugoslávia se dissolveu. Marcada por diferenças étnicas, políticas e religiosas, os países que então compunham e ex-Iugoslávia foram sentindo a crise da queda do regime comunista na Guerra Fria, principalmente a Sérvia e a Croácia, marcadas agora pelo nacionalismo, e foram conquistando sua independência. Mas essa crise posteriormente seria sentida também na Bósnia-Herzegovina, que entre 1992 e 1995 entrou em guerra justamente por conta da conquista de sua independência. Essa guerra entre sérvios e muçulmanos, com reviravoltas e partidos e grupo militares trocando de lado diversas vezes, causou verdadeira destruição no país e promoveu uma limpeza étnica por parte dos sérvios, muito semelhante à que ocorreu na Segunda Guerra Mundial.

Os impactos dessa guerra são narrados por Joe Sacco em Uma História de Sarajevo, publicado pela editora Conrad. Jornalista maltês especializado em coberturas de áreas de conflito, ele inicia o livro a partir de um relato feito em 2001, uma visita de volta à capital da Bósnia. Dessa visita, o jornalista/quadrinista resgata lembranças do tempo em que passou no país cobrindo a guerra nos anos 1990, da situação em que a cidade se encontrava e as mazelas de seus habitantes, arrancados de suas casas e jogados na rua para sobreviver. Diferente do que fez em Palestina: uma nação ocupada, em Uma História de Sarajevo Sacco não explica esse complicado conflito, suas motivações, causas e visões. Aqui, o seu relato jornalístico em quadrinhos é concentrado nas palavras e lembranças de apenas uma personagem: Neven.

Neven não é líder político ou tem alguma alta posição no exército. Em uma primeira olhada, não seria nem o protagonista dessa história. Neven é um ex-soldado que lutou durante um tempo na guerra da Bósnia, mas que agora atua como guia. Ele trabalha com jornalistas e fotógrafos, levando-os para as áreas de conflito e oferecendo visão privilegiada das dores de Sarajevo. Joe Sacco é fisgado por esse homem, e passa todo o quadrinho relatando o que viu em Sarajevo pelos olhos de Neven. Claro que sua visão das coisas também está muito presente no livro. Sacco se mostra cauteloso e reticente em muitas vezes, desconfiando das alegações de Neven, mas não ignora o fato de ele conhecer a cidade como a palma de sua mão e de também ter sofrido as consequências da guerra. Através dele, Sacco aborda os conflitos dentro de Sarajevo, explicando quais eram os grupos paramilitares que comandavam a área e seus respectivos líderes, homens fortes que influenciavam até o presidente da Bósnia.

A destruição de Sarajevo e a miséria em que seus habitantes viviam, assim como as arbitrariedades que tinham de agüentar por conta do exército bruto e governo pouco efetivo, são constantes nos quadrinhos de Joe Sacco. Neven relata a ele diversas histórias que vivenciou enquanto lutava e a trajetória de cada comandante em partes curtas, como um emaranhado de textos ligados por uma mesma temática. Enquanto isso, as impressões de Sacco enriquecem a experiência de visitar uma cidade em guerra. Neven é uma personagem emblemática, envolta em uma sombra que esconde a veracidade de suas histórias, mas bem informado para levar os jornalistas até o que procuram.

Uma História de Saravejo não é um livro para “entender” esse conflito. O leitor pode até ficar mais confuso ainda depois da leitura por conta das etnias e religiões que envolvem o início dessa guerra e que se misturam na luta contra ou a favor de sérvios e muçulmanos. Voltar à leitura de Área de Segurança Gorazde, livro anterior de Sacco que abordou os conflitos da Bósnia, certamente vai esclarecer melhor as raízes e momentos dessa guerra. Mas ela não precisa ser explicada minuciosamente para que velhos e jovens leitores entendam o tema e percebam a miséria que encobriu Sarajevo durante esses anos de conflito. Os desenhos bem detalhados que expressam destruição e emoção explicam isso muito bem. Mais um trabalho de Joe Sacco para receber elogios.