o-arcanjo-inconfidenteUm velho médio aposentado e professor de renome perde sua esposa e fica sozinho em sua casa em uma fictícia cidade do interior do Rio Grande do Sul. Estamos na Ditadura Militar, em um lugar onde vivem descendentes de imigrantes italianos na calmaria de uma cidadezinha que não tem preocupações maiores como aquelas que infernizam os moradores da capital. Por ser conhecido, o velho poderia ter muitos amigos, mas assim como sua esposa, todos aqueles que estima já se foram. Só restou ele e seu desprezo pelo resto da vida que tem em volta. E também a certeza de que em pouco tempo, ele também vai finalmente deixar esse mundo.

O velho é José, protagonista de O Arcanjo Inconfidente, livro de estreia de Benhur Bortolotto publicado em 2009 pela editora Movimento. O velho, para o narrador, é simplesmente o velho, não tem outro nome ou definição, como as outras personagens que fazem parte dessa história. O livro não relata apenas a solidão dele ou a sua espera pela morte, mas também o sopro de vida que recebe de novas pessoas que, ao contrário de tudo o que esperava, conhece logo depois da partida de sua mulher. Primeiro conhece Carmem, sua nova vizinha, uma mulher negra e mal vista pelas outras pessoas que a julgam por sua cor. O velho não tem esse preconceito, mas sim um comportamento rude que desafia e ofende a todos, inclusive Carmem, ainda jovem e, como depois descobre, noiva de um rapaz filho de descendentes italianos que desaprovam a união.

Também ele se aproxima mais de Maria, outra jovem negra que trabalha alguns dias limpando sua casa, e depois de se ver sozinho, se aproxima mais da garota de corpo monumental e descobre os dramas de sua vida. Depois surge Gabriel, filho de um dos patrões de Carmem que logo depois se mudam para o casarão que ocupa, ela uma enfermeira que cuida de seu pai, um major do exército, e junto com ele vem dona Magdalena, sua cunhada, e seu irmão, Juvêncio. É com Gabriel que o velho mais se aproxima, vendo nele uma semelhança com a sua juventude, uma liberdade que ele gostaria de compartilhar, um filho que nunca teve, e que agora pensa se deveria realmente ter. Os jovens, e também os outros velhos, lhe trazem na memória lembranças de todos aqueles que já se foram, e também o divertem com suas reações espantadas ao que o velho lhes diz.

Quem já leu José Saramago certamente vai se familiarizar com a narrativa de Bortolotto. Para ele, não há interrogações ou exclamações, muito menos aspas e travessões. Há apenas vírgulas, essas muitas, e pontos. A narração, o pensamento e o diálogo se misturam nas páginas, esses perceptíveis mediante muita atenção, necessitando da imaginação e compreensão do leitor para que a história flua até o final. É uma leitura mais cansativa, mas com palavras bem escolhidas e cuidadosamente organizadas que proporcionam uma boa experiência. O leitor está ligado apenas ao que o velho vê ou pensa, e realmente se esquece em alguns pontos se ele está lendo o narrador ou as divagações do protagonista.

José, ou melhor, o velho, é um personagem que conquista pelo seu temperamento rabugento, seco, e que por isso coloca as outras personagens em situações constrangedoras. Durante todo livro, ele testa e brinca com seus vizinhos e principalmente com o resto da população da pequena cidade com suas falas constrangedoras e com suas verdades, uma sinceridade que machuca, daquelas onde a mentira é preferível. Mas é por isso que ele é simpático ao leitor, pois não trai o que realmente sente e com essas falas leva as outras personagens a agirem, e não serem acomodadas na tranqüilidade do interior. Enquanto o leitor vê o velho buscando descobrir o que seus vizinhos e novos amigos escondem, o que ele não sabe é que ele próprio tem segredos, mas que julga não existir por ter acesso a tudo o que ele pensa.

Enquanto o leitor passeia pelos dias solitários desse velho, aos poucos descobre que o sentido de seu resto de vida é deixar tudo arrumado para que as pessoas com quem ainda se importa possam resolver seus maiores problemas. O Arcanjo Inconfidente é um livro que conquista pela sinceridade do protagonista e seu comportamento dúbio, que em um momento parece ser mesquinho e rabugento, e em outro cuidadoso e amável. É por esse protagonista tão melancólico e pensativo que Bortolotto fez uma ótima estreia como autor e merece a atenção e concentração de cada leitor.