axolotle-atropeladoHelene Hegemann foi recebida como prodígio literário ao publicar Axolotle atropelado com apenas 17 anos de idade. O livro é o diário de Mifti, uma adolescente problemática de 16 anos envolvida com drogas e sexo na Berlim atual, cercada pela riqueza dos artigos luxuosos da moda e amigos “intelectualóides”. Uma garota prodígio como a autora do livro, que assume sua condição de ruína como uma criança em busca de atenção, mas com frases de impacto que soam muito inteligentes. Órfã de mãe, mora com os irmãos mais velhos super descolados enquanto seu pai negligente viaja pelo mundo. Mifti nunca recebeu muito afeto da família, principalmente da mãe esquizofrênica, e sua carência a leva para as mais absurdas relações sexuais, incluindo a obsessão por uma mulher um pouco mais velha, a quem se submete a atividades sádicas.

O axolotle é uma espécie de salamandra mexicana que nunca se desenvolve, e nesse animal Mifti vê um retrato seu. Ela é igualmente parada no seu desenvolvimento, sem perspectiva de que vá fazer algo além de ir em festas, se drogar e passar os dias dormindo sem ir à escola. E também não recebe ajuda ou incentivo algum da família ou dos amigos para que saia dessa rotina desregrada, por mais que demonstrem preocupação. Axolotle atropelado tem ritmo intenso, uma verborragia de sentimentos e diálogos de Mifti, muitos deles fragmentados como suas lembranças danificadas pelo constante estado de embriaguez ou delírio.  E assim o leitor tem contato com a família, amigos ou estranhos com quem Mifti se encontra – e eventualmente transa – enquanto espera que algo dite o seu fim, seja uma overdose, suicídio ou a relação com aquela que a sodomiza e causa sua dependência e depressão, como a própria droga que consome.

Helene Hegemann foi considerada um achado literário não só pela pouca idade com que se lançou, mas porque o livro realmente impacta, atrai o leitor para os dramas de sua protagonista e o deixa desconfortável com a realidade de uma juventude sem limites. Se a autora queria escrever um livro perturbador, ela conseguiu – embora em vários momentos ele pareça ser apenas um discurso vazio de adolescente revoltado, só que com frases mais rebuscadas. Mas a polêmica em Axolotle atropelado não está na descrição de uma garota perdida em prazeres instantâneos, mas pela forma com que Helene o criou. Logo após seu lançamento, a autora passou a ser acusada de plágio por vários blogueiros e escritores que alegavam que o livro continha trechos inteiros de romances ou contos publicados em seus sites. E Helene não desmentiu as acusações.

A autora diz que seu método de escrita consiste no que todos nós chamamos de “ctrl + c e ctrl + v”. Durante a escrita de Axolotle atropelado, ela realmente se “inspirou” ou copiou trechos inteiros de diálogos, descrições de personagens e ações de outros autores que lia, em sua maioria blogueiros. E esse fato pesou na credibilidade da jovem. Apesar de o romance ser envolvente e bem escrito, não é possível creditar somente à Helene a sua autoria – por mais que a forma com que ela tenha “colado” todos esses recortes de texto seja um mérito só dela. A autora pediu desculpas publicamente por não ter revelado a cópia desses textos, que na edição original não constam nas referências do livro – o que é corrigido na edição brasileira lançada agora pela editora Intrínseca. Nessas referências, o leitor pode comparar o que Helene colocou no livro com os fragmentos originais das suas fontes. E realmente, ela não se esforçou muito em utilizá-los apenas como inspiração, a maioria são cópias literais.

Axolotle atropelado é uma boa leitura, mas cabe refletir se a autora realmente merece todo esse crédito pelo livro. Se o que ela fez é plágio descarado ou então uma nova proposta de fazer literatura, como alega, com recortes e colagens sem fim e escancaradas, prática talvez originada naqueles tediosos trabalhos escolares em que o conteúdo da Wikipedia é a “salvação” de alunos preguiçosos. Honestamente, o brilho que Helene conquistou apaga quando se descobre que nem tudo o que está em seu livro de estreia é consequência de seu talento literário.