bombaim-cidade-maximaA história de uma cidade é feita pelas pessoas que nela vivem. Pessoas que perpetuam a cultura de séculos e ao mesmo tempo sonham com a modernidade, avanços tecnológicos que lhes facilitam a vida, criando seus filhos em um lugar que mistura o antigo com o novo. Seja uma grande metrópole ou uma pequena cidade do interior, todas tem suas peculiaridades, suas histórias e personagens. Muitos são semelhantes, seguem a mesma rotina de casa e trabalho, mas existem aqueles que são singulares, estranhos e, por isso, notáveis. E por mais que essa cidade tenha falhas, quem nela cresce dificilmente irá esquecê-la e abandoná-la.

Essa introdução resume o que se encontra em Bombaim: cidade máxima, do jornalista indiano Suketu Mehta, finalista do Pulitzer de 2005 e recém lançado pela Companhia das Letras. No livro sobre a maior cidade do mundo, o autor revela os bastidores daquilo que mais caracteriza a capital da Índia: a superpopulação, o contraste entre riqueza e pobreza, os luxos de Bollywood e a corrupção incrustada no povo indiano. Nascido em Calcutá, Mehta viveu até a adolescência em Bombaim – que hoje é Mumbai, mas ele prefere se referir à cidade pelo nome que tinha em sua infância – até se mudar para os EUA com sua família e lá continuar seus estudos, se formar e construir uma carreira. Apesar de a América do Norte ser mais organizada e ter mais qualidade de vida, Mehta tem uma ligação forte demais com Bombaim para esquecê-la, o que o faz voltar a morar lá depois de 21 anos vivendo a cultura americana, já casado e com dois filhos pequenos. E é essa ligação que o motiva a escrever sobre a cidade.

A intenção do jornalista não é fazer um livro de História, que aborde os principais momentos de Bombaim em ordem cronológica. A ideia de Mehta é apresentar personagens entre as mais de 14 milhões de pessoas que vivem lá, que servem como retrato dos mais diferentes lados dessa metrópole que se divide entre religiões, o antigo e o novo, o liberal e o conservador. Pensar no tamanho de Bombaim, na dimensão de uma cidade onde não existe privacidade por conta da superpopulação, já é de espantar. Mas a condição em que elas vivem é ainda mais impactante. O autor narra como surgem diariamente novas favelas, barracos que se desintegram em cada chuva ou demolições feitas pelo governo e que são rapidamente reerguidos – o que define os indianos como um povo resistente. Tomando como base os tumultos entre hindus e muçulmanos nos anos 1990, mostra como o mundo luxuoso da cidade está intimamente ligado ao crime. Bombaim é uma cidade onde a corrupção se alastra pelos órgãos públicos, onde o sistema judiciário é falho a e as gangues criminosas comandam os cidadãos por meio de intimidações, roubos e, além de tudo, proteção para aqueles que não acreditam mais na justiça.

Mehta se insere em cada uma das mais de 500 páginas do livro, pois é através dele que temos acesso àqueles que aceitaram contar suas histórias vividas em Bombaim. Por isso ele se mostra uma pessoa muito simpática, solidário com os problemas daqueles que entrevista. É com essa mesma simpatia que o autor conquista para a leitura: ele não traz não simples histórias que retratam os dias da capital indiana, mas personagens que se abrem para mostrar ao jornalista o que é ser indiano, o que é morar em Bombaim com todas as suas falhas. O leitor pode comparar esses relatos com as impressões do próprio jornalista, que as coloca no livro para mostrar ao leitor ocidental as discrepâncias entre a cultura indiana e a nossa.

Das favelas à Bollywood, Mehta descreve costumes, condições de vida, burocracias e pilantragens que parecem, ao leitor, muito próximas da própria cultura brasileira – aquela do “jeitinho”, tão admirada por aqui, mas que lá é potencializada a um nível caótico. Apesar disso, não deixa de descrevê-los como um povo alegre, que festeja, ri e dança, enquanto esperam melhorar de vida, motivados pelos sonhos que tem certeza que um dia irão realizar. É curiosa toda a ligação que o autor faz entre as diferentes classes sociais da cidade ao falar dos conflitos entre hindus e muçulmanos, ao entrevistar traficantes e policiais, dançarinas de bares, diretores e atores de uma das maiores indústrias cinematográficas do mundo, enquanto compara tudo com a Bombaim de sua infância, agora tão diferente, mais suja, perigosa e tumultuada.

Em poucos livros se encontram personagens tão peculiares como o homem que se veste de mulher e se torna uma das dançarinas mais disputadas de Bombaim; ou como o policial honesto que divide autor e leitor entre a aprovação de seu serviço e o asco das torturas que promove; ou ainda como o rico indiano que fez a vida em Dubai e volta para Bombaim aceitando a pobreza pelo sonho de ser um herói do cinema. São pessoas que se destacam entre as outras milhões, que ilustram o que é Bombaim conseguindo passar ao leitor as emoções que se tem vivendo nela. Mais que o retrato sobre uma cidade, Suketo Mehta fez uma análise profunda e curiosa sobre o que é viver entre milhões de pessoas em um lugar onde os extremos sempre se encontram.