entretanto-foi-assim-que-aconteceuUm dia desses, um amigo retuitou uma mensagem que dizia mais ou menos assim: “a necessidade de ser criativo está fazendo mal ao jornalismo”. Discordo. Para mim, o que está fazendo mal ao jornalismo é a falta de profissionalismo, prazos apertados, acomodação e, principalmente, a padronização da informação. O jornalismo consumido hoje – sim, notícias são produtos – é baseado na repetição. Todo portal de notícias traz o mesmo conteúdo com a mesma abordagem, e o jornal impresso só repete a notícia que todo mundo já viu, assistiu e ouviu no dia anterior. Para o jornal impresso isso não é nada bom, pois manter-se informado através do papel atualmente significa receber informação atrasada, embora ele ainda garanta mais legitimidade à notícia.

Christian Carvalho Cruz, jornalista do caderno “Aliás” do Estado de S. Paulo, é um exemplo de como a criatividade – e gosto pela profissão – só tem a contribuir para o jornalismo. O seu trabalho consiste em reavivar no caderno dominical algum assunto que foi pauta no jornal durante a semana e apresentá-lo com um novo olhar: mais original, surpreendente e literário. E ele faz isso muito bem, pois não fala necessariamente daquilo que foi capa do jornal, mas sim de assuntos que não renderam – para outro jornalista e seu editor – nada além de uma notinha em um canto da página. Essas reportagens, que mais parecem crônicas, foram reunidas no livro Entretanto, foi assim que aconteceu: quando a notícia é só o começo de uma boa história, publicado pela Arquipélago Editorial.

O livro traz 23 reportagens de Cruz que figuram entre perfis – de Elza Soares à Geisy Arruda – e investigações, como tentar descobrir de quem era o corpo encontrado dentro de um carrinho de supermercado em uma favela do Rio em 2009. O jornalista não se contenta com as simples perguntas, os dados estatísticos ou números: ele quer rostos, histórias, nomes, vidas que podem virar um texto emotivo, inteligente e ao mesmo tempo informativo. Ele quer, e encontra, aquele detalhe insignificante que ninguém vê, mas que bem explorado rende uma narrativa muito interessante, uma história que vale a pena contar.

Christian Carvalho Cruz não usa uma fórmula de texto onde simplesmente joga essas informações que recolhe, embora tenha repetido uma maneira de apresentar o físico de dois de seus entrevistados. Esqueçam o tal quem, o que, quando, como, onde e porquê, obrigatório em todo lead de jornal. Ele encontra em cada história uma forma diferente de narrar, cria textos para explorar o que cada pauta tem a oferecer. Como usar um portunhol bem arranhado em uma reportagem/carta à Maradonna e sua seleção Argentina em crise tentando uma vaga na Copa do Mundo de 2010. Ou então escrever em primeira pessoa como se fosse a senhora fã da Osesp em uma ida ao concerto. Cruz não poupa gírias, sotaques, ou seja lá mais o que caracterize a fala de suas fontes, tudo para montar um texto envolvente e, apesar de tão literário, fiel aos fatos.

É lógico que nem todo jornalista tem o tempo e espaço que Christian Carvalho Cruz usufrui para pesquisar, entrevistar e escrever suas reportagens. Uma semana para fechar uma pauta é o paraíso comparado com escrever cinco matérias em apenas um turno. A questão é se outro jornalista, com os mesmos recursos que Cruz tem, escreveria textos com qualidade igual. Criatividade não faz mal, não é veneno, não mata ninguém. Apresentar a notícia com um olhar diferente do habitual só aumenta o seu valor.