equadorNo século que prometia grandes invenções, novidades e evolução social, Portugal era acusado de continuar tratando suas colônias como o fazia desde sempre: com excessiva exploração de suas terras e seus nativos. Com a abolição geral do regime escravagista em todas as suas colônias em 1875, o país que descobriu o Brasil ainda não havia erradicado de vez o trabalho forçado nos territórios controlados, tanto por conveniência quanto por atraso político. Para todos os portugueses não existiam mais escravos, os trabalhadores eram livres para ir e vir pelos territórios sob governo do país europeu. Mas para outras nações, inclusive aliadas, a mão-de-obra que trazia riquezas para o império português vivia em uma escravidão velada, escondida por leis que diziam conceder vida digna aos colonizados, mas que não eram efetivamente postas em prática.

Esse contexto político dado por Lilia Moritz Schwarcz no posfácio da nova edição de Equador publicada pela Companhia das Letras, de Miguel Sousa Tavares, é o cenário da trágica história de Luís Bernardo Valença. Bon vivant de Lisboa, um homem culto que aprecia a arte, a conquista e uma boa bebida, Luís Bernardo vivia dias tranqüilos apenas a gozar a riqueza que tinha. Suas opiniões fortes sobre a política de governo das colônias portuguesas que circulavam pela capital chamaram a atenção do rei D. Carlos que viu nele a saída para um conflito futuro com seu aliado político, a Inglaterra.

O país acusava Portugal de empregar trabalho escravo na menor de suas colônias, as duas ilhas de São Tomé e Príncipe, localizadas na linha do Equador à 200km da costa do continente africano. Ambiente hostil, de forte calor, chuvas torrenciais e doenças, a ilha receberia um cônsul inglês que avaliaria as condições dos trabalhadores trazidos de Angola para as roças de cacau da colônia, seu principal sustento e lucro para a coroa portuguesa. Caso comprovado o trabalho escravo, a Inglaterra boicotaria a importação do cacau de São Tomé e Príncipe, dando fim à lucrativa colônia.

A missão conferida a Luís Bernardo pelo rei não era apenas assumir o governo de um lugar onde todos viviam por obrigação, tanto os brancos quanto os negros. Ele tinha de convencer o nomeado cônsul inglês de que não existiam escravos na colônia portuguesa e, mais difícil ainda, mostrar para os roceiros das ilhas que o trabalho forçado deveria ser definitivamente abolido. Ou seja, em apenas três anos, Luís Bernardo deveria mudar a mentalidade dos donos das roças e o esquema de trabalho que perdurou durante séculos. Como o próprio protagonista sentencia, não é possível dizer não a um pedido feito diretamente pelo rei, e movido também por outras circunstâncias, aceita a missão. O leitor então é transportado junto dele às tropicais, lindas e hostis ilhas de São Tomé e Príncipe.

Miguel Sousa Tavares mescla a narrativa lenta, detalhista e reflexiva, com momentos rápidos, em que os acontecimentos passam pelos olhos do leitor abruptamente, mas reverberam durante a narração através dos pensamentos do protagonista. Primeiro o autor habitua tanto personagem quanto leitor ao clima inóspito das ilhas africanas, apresentando suas peculiaridades, seus moradores e a visão política do lugar para onde inesperadamente foram parar. Essas passagens lentas, em que Luís Bernardo acaba regressando a seus dias festivos em Lisboa, também são o momento em que Tavares carrega as páginas com informações históricas, enriquecendo o romance com detalhes do começo do século XX. Além dos dramas apresentados no início do livro, o irrecusável pedido do rei e um breve romance com a prima de seu melhor amigo, uma mulher comprometida, pouco se vê de conflitos até a apresentação do temido cônsul inglês.

David Jamenson e sua mulher, Ann, são apresentados com pompa. Tavares também cria para eles toda uma situação que os fazem aceitar ir até a colônia “desconhecida” de Portugal, narrando a sua vida na Índia, de onde vêm, e ao mesmo tempo montando um perfil que simpatiza as personagens ao leitor. Essa apresentação adianta que o nomeado inimigo do protagonista será na verdade um amigo, trazendo para o romance um conflito que vai além da política e entra também nos dilemas morais. Com isso Equador não tem apenas um problema Histórico como tema, mas também traz tramas que envolvem amizade, amor, honra e traição, que invariavelmente influem na missão de Luís Bernardo e David.

Com personagens bem delineadas e envolventes, Tavares fisga o leitor para a solidão que as consome em São Tomé e Príncipe com reviravoltas bem aprofundadas em cada novo conflito. O leitor passeia pelas páginas sem dificuldades lendo a conflituosa recepção de um novo governador, a inesperada amizade com seu declarado algoz, os desejos despertados pela reclusão em um pequeno território e os aspectos que fazem das ilhas africanas serem tanto amadas quanto odiadas por quem nelas vivem. Apesar da tragédia anunciada na vida das personagens e na própria política de Portugal, Miguel Sousa Tavares convence de que a missão do protagonista é possível, envolvendo o leitor nos sonhos quase utópicos de Luís Bernardo. E assim o surpreende com um final triste e realista, mas que guarda a beleza das pequenas ilhas, consagrando Equador como uma ótima leitura.