todos-os-fogos-o-fogoFamiliarizar o leitor com histórias baseadas principalmente no cotidiano é fácil quando o que se tem em mãos é um enredo simples, uma trama interessante e bem fechada, realista e próxima ao que se vê na realidade. Quando essa realidade é cortada por rompantes de fantasia, tornar essa história ainda natural aos olhos de quem lê é um pouco mais complicado. E quando isso é feito, o efeito de surpresa é ainda maior, assim como a satisfação da leitura. Em Todos os fogos o fogo, de Julio Cortázar, a união do real com a fantasia não distancia o leitor daquilo que ele mesmo vê em seu dia-a-dia, mas o aproxima dele mesmo, com seus desejos e fantasias que ele alimenta poderem ser reais.

Esses momentos estão bem marcados em “A auto-estrada do sul” e “A saúde dos doentes”. No primeiro, que abre o livro, Cortázar narra os dias e meses de um engarrafamento iniciado na volta de um feriado para Paris, que obriga os motoristas a montarem acampamento e se organizarem socialmente enquanto lentamente seguem pela rodovia rumo à capital. A situação vivida pelas personagens é contada de forma tão natural que, assim como elas se habituam a essa nova vida passada dentro de carros e limitada aos espaços entre um veículo e outro, o leitor também enxerga esse engarrafamento surreal como algo normal, como se não fosse surpresa passar tanto tempo parado na estrada. E quando a situação volta ao seu normal e os carros seguem rapidamente até seu destino, o estranhamento toma conta e a saudade se instala naqueles que já estavam acostumados à nova organização.

A mesma adequação a situações estranhas acontece em “A saúde dos doentes”, onde uma família se empenha em esconder da matriarca a morte de seu filho, inventando uma súbita ida ao Brasil a trabalho que incluía cartas, telefonemas falsos e visitas da ex-noiva afim de não causar sobressaltos no cotidiano calmo e regrado da mãe. A mentira é tão convincente para quem a tramou que, ao fim de todo o segredo, é impossível pensar nesse filho como morto, mérito do texto de Cortázar que aos poucos entra na loucura das mentiras que se multiplicam quando se refere em alguns momentos ao falecido como se estivesse vivo.

Os contos com múltiplos narradores e histórias são outros que se destacam pela naturalidade com que Cortázar altera o ponto de vista muitas vezes no mesmo parágrafo ou mesma frase. “Senhorita Cora” altera a narração da estadia de um adolescente no hospital por conta da retirada de um apêndice entre as impressões da mãe, do garoto e de sua jovem enfermeira, um conto sedutor e instigante pela incerteza do que cada um realmente pensa sobre o outro. Há nele a vergonha e humilhação que o adolescente sente ao ser visto como um menino e não um homem, a confusão da enfermeira sobre a maneira correta de lidar com o paciente e os cuidados exagerados da mãe superprotetora. Já no conto que dá título ao livro, as duas histórias narradas pelo autor, que igualmente se alternam inesperadamente entre vírgulas e pontos, não são ligadas por algum elemento ou tempo específicas, além da temática do amor e traição que se apresentam de forma bem distinta. Entretanto, essas duas tramas tão diferentes não são confusas ao leitor, e se unem finalmente em um final trágico.

Considero “A ilha ao meio-dia” como um dos contos que mais me aproximou da história criada pelo autor. Assim como Marini, um comissário de bordo de uma companhia aérea que faz o trajeto Roma–Teerã, também fixo meu olhar em algum local no qual gostaria de estar e por onde passo todos os dias, mas que nunca visitei. No caso da personagem, esse local é uma ilha que a aeronave sobrevoa quase todos os dias ao meio-dia, e que o faz parar à janela para admirá-la e sonhar com o dia em que finalmente colocaria seus pés lá.

Ainda há mais em Todos os fogos o fogo que me faz lamentar não ter lido Cortázar antes e querer ir atrás de todo o resto que ele escreveu. Os contos têm a medida certa para fazer o leitor mergulhar nas histórias, se envolver com elas a ponto de se surpreender ao fim de cada uma. São curiosos o bastante para que sejam lidos sem pausas, com ansiedade para descobrir o que Cortázar tem a contar a cada nova linha e o que irá inventar no próximo conto. Qual vai ser a situação e como ela se assemelha ao que também sonhamos. Enfim, são textos bons como poucos.