24-letras-por-segundoSe um diretor consegue condensar 700 páginas de um livro em duas horas de filme, então um escritor pode transformar duas horas de filme, ou uma carreira inteira de um diretor, em 10 páginas de um conto – ou mais, ou até menos. E dezessete escritores, cada um com seu diretor preferido, reúnem esses contos em 24 letras por segundo, último lançamento da Não Editora. Organizada pelo não-editor Rodrigo Rosp, que encarna Woody Allen no conto “Todos os homens dizem eu te amo”, a proposta da antologia é homenagear grandes diretores do cinema baseando-se em suas obras, trazendo para a literatura as principais referências de seus filmes.

Se os textos estão carregados de pedaços da história do cinema, com o livro em si isso não poderia ser diferente. O que o destaca, além da proposta, é a capa de Samir Machado de Machado também autor de um dos contos, inspirado em Steven Spielberg – e o projeto gráfico de Guilherme Smee, que fazem do livro uma capa de VHS vinda direto dos anos 1980. Antes de começar a leitura, é bom gastar bons minutos para olhar todos os detalhes do exemplar, cada referência colocada na contracapa, na folha de rosto, nas imagens que abrem os contos. 24 letras por segundo é o tipo de livro que torna insossa a leitura em um e-reader por conta de sua qualidade gráfica, coisa que nenhum leitor digital conseguiria imitar. 

Os contos seguem essa mesma qualidade, o que se percebe logo no primeiro texto, de Bernardo Moraes em sua versão literária de Quentin Tarantino, um prato cheio para quem gosta de referências pop e muito sangue, assim como os (ótimos) filmes do diretor. E também no conto curto, mas fantástico e meio louco como Tim Burton, em “Um mar para Carmina”, de Monique Revillion. E a leitura apenas melhora, principalmente quando chega em “Irmãos”, de Reginaldo Pujol Filho, em que Joel e Ethan Coen se transformam em mecânicos de uma pequena cidade, protagonistas de uma cadeia absurda e cômica de acontecimentos passados ao leitor por um narrador que é quase tão personagem quanto os diretores/mecânicos.

Se o conto de Burton é meio louco, Pena Cabreira mergulha de vez na insanidade em “O Conchário”, referência a Terry Gilliam, com um texto carregado de expressões “gaudérias” e uma história fantástica onde um homem prepotente ignora todos os avisos e afunda nas conchas de uma praia do Sul, parando em um lugar que mais parece um mundo paralelo, ou apenas uma invenção da sua mente. Colocando os pés no chão, um dos melhores textos desse livro é de autoria de Rafael Bán Jacobsen, “O paradigma do mexilhão”, inspirado em Pedro Almodóvar. O texto traz a frieza das memórias de um jovem marinheiro que volta a uma pequena aldeia de pescadores na Espanha para velar sua mãe e descobrir quem realmente é seu pai. O conto mistura erotismo e um sarcasmo melancólico, cruel, e ótimo de ler.

O Brasil vem bem representado com José Mojica Marins, ou o Zé do Caixão, e a história trash de uma perna cabeluda contada por Bruno Mattos. E outros bons textos são os de Silvio Pilau com seu trio de personagens saindo da adolescência, referência aos filmes de Kevin Smith, e de Antônio Xerxenesky, que inspirado em Hal Hartley fala de uma jovem colhendo teorias para explicar o fim de seus relacionamentos, pescando monólogos dos amigos pela memória e ela mesma tentando estabelecer sua própria tese sobre o amor, ou a falta dele.

Cada conto 24 letras por segundo provoca alguma reação no leitor, seja a satisfação de reconhecer as referências de nomes de filmes, personagens e lugares quase escondidos nas tramas, ou perceber as semelhanças entre texto e roteiro ou a própria personalidade do diretor transformada em história. Ou então ainda leva à procura pelo trabalho dos diretores, a fim de perceber melhor todos esses detalhes que cada autor trabalhou em seus contos. No fim, vai ficar a vontade de obedecer à ordem das últimas páginas para “rebobinar o livro” e, quem sabe, ler tudo novamente.