dupla-faltaTênis é um esporte egocêntrico, dizem. Não importa o número de jogos conquistados, os campeonatos vencidos, mas sim um ranking, uma lista seleta e cruel que diz quem é bom e quem é medíocre no esporte, que alavanca ou arruína uma reputação. Desde os cinco anos de idade, tudo o que Willy Novinsky deseja é estar nessa lista. Mas não em uma posição qualquer, ela quer é ser uma das grandes tenistas, daquelas invejadas pela técnica, personalidade e dedicação ao tênis. E desde essa idade, sem nem contar com muito apoio de sua família, é nisso que ela pensa toda vez que entra em quadra com a raquete em mãos. Aos 23 anos de idade, Willy parece bem próxima de seu objetivo, sendo treinada por um dos principais nomes do esporte, com uma bolsa que paga pelas suas competições e nenhuma preocupação além do seu jogo – e de um eventual relacionamento com seu treinador.

Em Dupla falta, último romance traduzido da escritora Lionel Shriver publicado pela editora Intrínseca, a competitividade de Willy sufoca tanto personagens quanto o leitor. Um romance que, apesar de evocar o tênis em cada parágrafo, não se trata exatamente sobre o esporte, mas sim sobre uma competição e ego exagerados de uma mulher. Enquanto se prepara para grandes torneios que colocariam seu nome cada vez mais alto na posição no ranking, Willy poderia esperar por tudo, menos que se apaixonasse por outro tenista, um estranho chamado Eric que em um dia qualquer parou para olhá-la durante um treino, e que daí em diante seria seu parceiro de quadra e de cama. Confiante de seu talento para o esporte e futuro brilhante como tenista, ela se vê diante de alguém tão talentoso quanto: o próprio marido, formado em Princeton e com um jeito despretensioso de jogar que faz com que tudo pareça fácil demais para ele de uma forma irritante.

É em volta dos sentimentos e percepções de Willy acerca da competitividade que Dupla falta se sustenta. A própria sinopse do livro não esconde que as personagens não vão conquistar o que elas realmente querem, já que a aproximação de uma derrota, seja a do jogo ou a do amor, é o mote para o romance. Mas essa decadência atlética e emocional se dá gradualmente, conforme Willy vê o marido melhorar seu jogo, conquistar pontos para o ranking até que o jovem tenista de técnica bruta se aproxima da leve, lapidada e explosiva esposa na lista dos melhores do mundo.

Lionel Shriver cria uma mulher egocêntrica, que não pensa em nada além de vencer, e apesar do amor que diz sentir por Eric, se vê impossibilitada de torcer ou ficar feliz com as conquistas dele. Para ela, não existe vida além da sua própria glória no esporte. Eric é um rival, alguém que está tirando o brilho dos holofotes de cima de Willy, e Lionel entra fundo na personalidade de sua protagonista para descrever a crescente irritação, raiva e ódio que aos poucos toma conta do livro. Não é difícil para o leitor prever as explosões de Willy, mas isso não significa que o romance seja previsível. Na verdade, existe é uma grande aproximação entre leitor e personagem, com detalhes bem descritos que o leva a entender seu comportamento infantil e competitivo, ao mesmo tempo em que se surpreende com a sua capacidade depreciativa.

Dupla falta ainda lida com a competição entre homem e mulher, em que para Willy ser ultrapassada pelo marido é uma forma de humilhação, como se o sucesso de Eric fosse uma afirmação da superioridade masculina. O desejo de ela ser vista como mulher independente, vitoriosa sobre a força do marido, estende a sua competição imaginária também para sua relação afetiva. Willy rechaça a vida de mulher frágil, que segue o marido em suas competições e torce por ele. A simples imagem de ter que se sujeitar ao papel de esposa dedicada quando o tênis começa a definhar só contribui para que sua irritação aumente.

Willy é uma personagem que se exige demais, que não pretende superar apenas seus adversários, mas também a si mesma, e Dupla falta mostra para o leitor toda a frustração de ter de conviver com uma meta não atingida. Com um orgulho ferido e destrutivo tão impregnado na personagem que é impossível visualizar um futuro em que ela aceite os acidentes de percurso que abalaram seu jogo e, principalmente, aqueles que ela mesma causou para atingir a quem culpa pela sua derrota. Lionel Shriver equilibra muito bem doses de compreensão e perturbação, com capacidade de mergulhar o leitor nas situações complicadas que cria para desafiar os limites de uma competição onde ninguém sai ganhando.