memorias-do-sobrinho-de-meu-tioParece que é só de hoje, mas política e corrupção são duas coisas que andam juntas há muito tempo. Quando uns reclamam que governo tal é corrupto, outros respondem com a frase: “mas isso sempre foi assim”. Ou dizem então que essa sensação de que a roubalheira do governo só parece ser maior agora porque é mais noticiada. Isso até pode fazer sentido, embora considere que tendemos a achar os problemas atuais muito maiores do que os de uma época que já passou – sensação acentuada pelo hábito de não pesquisar por conta própria para nos informarmos mais sobre. Mas o fato é que, aqui no Brasil – e outros lugares do mundo também –, a corrupção não é um mal dos dias contemporâneos ou só dos prédios em Brasília, mas vem de longe, de quando a nossa capital não existia nem em sonho.

As críticas a um governo mergulhado em roubo e exploração do dinheiro púbico já eram feitas antes mesmo da Proclamação da República, como em 1868, quando foi publicado o romance Memórias do sobrinho de meu tio, de Joaquim Manuel de Macedo, que ganhou nova edição pelo selo Penguin – Companhia das Letras. Continuação de outro livro do autor, A carteira de meu tio, esse romance dá sequência às aspirações políticas de um certo jovem sem estudos, sem vergonha na cara e sem escrúpulos. Seu objetivo é ser eleito deputado da província do Rio de Janeiro – cargo que o próprio autor ocupou em 1854 – e para isso vai contar com uma herança deixada por seu tio, que falece logo no início dessa história. Com linguagem sarcástica que explicita as ideias pouco lisonjeiras do protagonista, Macedo introduz o leitor à situação política do Brasil nesses anos sem esconder dele o que realmente interessava aos “representantes do povo”: enriquecer e viver à custa do governo.

O “sobrinho do tio”, como o narrador/protagonista se refere a ele mesmo, sente orgulho em dizer que pertence a “Escola do Eu”, uma ideologia própria em que o que importa são os seus ganhos. O sobrinho do tio não tem partido político ou amizades dentro do governo, ele manipula suas alianças dentro nesse meio conforme lhe convém. É um vira casaca, um homem que sabe pouco sobre a situação política da província onde vive (Rio de Janeiro), mas tem a cara de pau necessária para compactuar com aqueles que vão alçar sua carreira política – e seu bolso – e lhes virar as costas quando for necessário. Ajudando-o nesse plano de chegar à cadeira de deputado está Chiquinha, sua prima e também herdeira de seu tio, tão maquiavélica e calculada quanto ele, cujo pedido de casamento aceita para aumentar a fortuna e entrar no mundo político para conseguir um título de baronesa. Em contraponto há Paciência, um velho amigo de seu tio declaradamente liberal e crítico ferrenho do governo brasileiro, um homem que o protagonista suporta pelo interesse que tem na sua herança e para acalorar as discussões em seus saraus.

Macedo não economiza palavras e analogias para retratar um político da época e as suas atividades corruptas. Entre discussões sobre a situação dos escravos, dos trâmites da Guerra do Paraguai e das conveniências do apoio ao governo, o autor faz críticas fortes à política praticada tanto através de Paciência, o declarado insatisfeito e contrário ao governo; quanto do próprio protagonista, que escancara a corrupção ao compactuar com ela, mas ofendendo seus iguais ao mesmo tempo – pois, para ele, os políticos só merecem respeito até onde lhe convém, depois de alcançado o objetivo, todos não passam de ferramentas usadas e descartadas.

Memórias do sobrinho de meu tio traça um plano simples repleto de mentiras e fingimentos para que um jovem ambicioso chegue ao lugar que almeja ocupar. As intrigas de que faz parte, o apadrinhamento, o uso da imprensa para a construção de uma imagem, isso tudo está no livro e são peças fundamentais para que o protagonista chegue até o cargo de deputado que tanto deseja. O mais interessante do romance é o comportamento do sobrinho e sua visão de para que serve a política, sem um pingo de remorso ou culpa, nenhum momento de preocupação com os cidadãos ou com alguma ideologia levantada pelos partidos, já que para ele não importam pessoas ou ideias, mas apenas os seus ganhos. Há sim deboche desse sistema mantido por políticos acomodados através das caracterizações que Macedo faz dos “colegas” do sobrinho. O livro, então, é familiar às denúncias de corrupção que vemos ainda hoje e que, apesar de há tanto tempo escrito, permanece atual.