o-homem-despedacadoAo terminar a leitura de O homem despedaçado, o próprio autor resume bem o que o leitor acabou de ver em seu livro de estreia: “Todos os contos apresentam formas de despedaçamento e não surpreende que, em alguns pedaços, eles se encontrem assim como, às vezes, lembrem outras histórias”. Essa explicação final que Gustavo Melo Czekster faz de sua própria obra apenas confirma as desconfianças do leitor de que seus contos funcionam em conjunto, se complementam e mostram olhares diferentes das situações absurdas e extraordinárias pelas quais passam suas personagens. Os textos de Czekster falam da fragmentação do homem, dele se separando dele mesmo na tentativa de se entender. Um exercício de auto-conhecimento solitário e, na maioria das vezes, destrutivo.

Publicado pela editora gaúcha Dublinense, os contos trazem diversas personagens que vivem em variadas épocas, mas ainda assim parecem semelhantes em seus medos, angústias e na própria fantasia que as envolve. Teorias filosóficas as levam a se digladiar com paradoxos e invencionices inacreditáveis se tornam críveis nas palavras do escritor, como em “A gênese dos paradoxos brancos”, em que um grupo de “pensadores” descobre a parte mínima que individualiza os seres humanos. A descoberta daquilo que faria “Deus” enxergar a matriz de cada homem é tão perturbante que leva as personagens a temerem o próprio ato de pensar – como na frase de Pamela Anderson (sim!) que abre o texto: “Pensar demais me deixa assustada”.

Essas personagens invariavelmente se defrontam com tragédias, seja na imagem da própria morte ou em algum acontecimento cruel e melancólico que guarda certa beleza. É o caso do conto “Lição de macho”, onde um garotinho relata a dependência e adoração misturadas ao medo que tem de seu pai, que abusa dele constantemente. O texto é curto, mas carregado dos sentimentos da criança que se referem ao pesadelo de ser abandonado não só pela mãe, que fugiu desses abusos, mas também pelo pai. O conto título do livro também tem sua beleza, na história do homem que, ao quebrar um espelho, passou a ver diferentes versões de si mesmo nos cacos que não refletiam mais a sua real imagem. O fascínio por poder enxergar os diversos rumos de sua vida alterados por escolhas distintas o faz não reconhecer a própria pessoa que realmente é.

Alguns temas são constantes no livro. As moscas que permeiam todo o seu projeto gráfico aparecem em várias outras histórias e são praticamente protagonistas de “Um mundo de moscas”, em que um pesquisador afirma que há um número “x” desses insetos para cada ser humano, um valor inimaginável que não cabe na própria Terra. Contudo, o tema mais recorrente nos textos de Czekster são as guerras. A maior parte deles são protagonizados por soldados em momentos críticos da batalha, iluminados por um pensamento abrupto que lhes abre a mente, por algum companheiro que lhes intrigam com suas reflexões inusitadas ou com seus delírios à beira da derrota. São nesses textos que personagens se repetem, voltam aparecer para o leitor sem que sejam diretamente reconhecidas, mas mesmo assim familiares. “Pequena parábola para os homens-rio” e “À espera do inimigo” são só dois dos diversos contos que tratam de momentos de luta em que a esperança da vitória se confunde com a própria morte.

Czekster não situa a maior parte dos contos em algum tempo ou lugar, e mesmo quando o faz – citando brevemente locais de Porto Alegre, por exemplo – a impressão é que essas histórias não pertencem fixamente àquele local. Isso não é nenhum defeito, pois deixa ao leitor a opção de imaginar a história no tempo e espaço que bem entender. Assim, mesmo ao situar o texto em cenários já conhecidos, a ausência de detalhes desses locais leva o leitor a imaginá-los de outra forma. A história acontece independentemente de onde ela estiver.

O homem é uma porção de fragmentos que destoam entre si e, nessa ambigüidade, se unem e formam os mistérios por trás de cada pessoa, criam os paradoxos que as inquietam e amedrontam. O homem despedaçado versa sobre essas pessoas que se dividem em partes no seu imaginário na tentativa de criarem uma nova teoria revolucionária, ou de entender suas dores em momentos de sofrimento. Um bom livro de estreia, que agrada pelos textos bem escritos e por fugir do simples cotidiano.