silenciosa-algazarraAna Maria Machado nem havia trabalhado com crianças ou tido qualquer experiência parecida quando começou a escrever histórias infantis para a Revista Recreio em 1969. Assim como outros escritores que começaram a escrever para esse público na mesma revista e, como ela, nunca mais pararam de dedicar suas histórias às crianças. Agora, Ana Maria Machado é uma das principais autoras infantis do país, com mais de 100 livros publicados, além de romances e outros títulos voltados para o público adulto. Mas mesmo sem esse contato mais acadêmico com crianças, a autora é um dos primeiros nomes pensados quando o assunto é o incentivo da leitura e a importância da prática para o desenvolvimento pessoal e social.

Em Silenciosa algazarra: reflexões sobre livros e práticas de leitura, lançado recentemente pela Companhia das Letras, a autora reúne seus ensaios e palestras em que traz boas ideias e críticas sobre o incentivo da leitura a importância da literatura infantil e juvenil. Sua fala baseia-se principalmente em suas experiências como autora e leitora, e o livro trata tanto da tarefa de formar leitores até divulgar a literatura infantil brasileira no mercado internacional. E para abrir esses textos, nada melhor do que trazer justamente um que fala da importância da literatura para a sociedade. Ana Maria Machado traz vários argumentos para falar do papel da literatura na formação humana, em que sua leitura é uma ferramenta que nos torna críticos, melhora nosso vocabulário, nos faz conhecer novas culturas e principalmente nos ensina a aceitar a diversidade.

Não só isso, para a escritora, a literatura é importante e deve ser ensinada às crianças por ser uma herança a qual elas tem direito. É através dos livros, sejam os de História ou da própria literatura, que temos contato com o que foi produzido e pensado no passado. E toda e qualquer pessoa, principalmente as crianças, tem direito a ter contato com essa produção. A literatura, então, não é apenas um entretenimento – embora essa seja uma de suas características –, mas possui uma função social. Por mais que outras narrativas também tragam valores e questões importantes a serem pensadas, Ana Maria Machado coloca a literatura como aquela que mais estimula o desenvolvimento por fazer imaginar, e não apenas mostrar uma história.

Silenciosa algazarra não é um livro que se estrutura apenas em cima de dados, estudos ou outras estatísticas sobre leitura e literatura, esses são elementos usados apenas como apoio para a autora apresentar seus argumentos, e aparecem pouco. A experiência da escritora é o que move as suas apresentações sobre educação e leitura, onde ela relaciona a prática e seu desenvolvimento com conflitos em que a liberdade de expressão esteve ameaçada – quando começou a escrever para crianças, o Brasil passava justamente pela Ditadura Militar – e também levanta a necessidade do ensino de literatura infantil na formação dos professores. Constantemente a autora ataca o sistema educacional brasileiro, onde temas importantes saem dos currículos escolares e os alunos deixam as salas de aula cada vez mais despreparados. É falando sobre esse tema que surge uma das partes mais interessantes do livro, no texto “Alguns equívocos sobre leitura”, em que a escritora fala da reação de burocratas da educação em um encontro promovido pela Unesco no Chile em 2005 quando ela expôs a importância de professores serem também leitores de literatura infantil. Ao falar sobre o tema, a escritora foi confrontada com opiniões contrárias por parte de ministros da educação de países latino-americanos, que afirmavam que a leitura não é necessária, expondo vários argumentos pouco convincentes para justificar a falta de professores leitores.

Mais do que dar importância para a leitura, Ana Maria Machado aumenta também o prestígio da literatura infantil. Livros para crianças é o tema principal, e além de falar um pouco sobre a História e estrutura da literatura infantil – como em “Contador que conta um conto faz contato em algum ponto”, monografia em que mostra as semelhanças entre nossas histórias populares com as que foram reunidas pelos Irmãos Grimm –, a escritora também levanta questões importantes sobre a qualidade da literatura infantil e principalmente das edições, colocando os livros para crianças em local de destaque, longe da imagem de “bobinhos e simples” que leitores, pais e até educadores possam ter dessa literatura. Escrever para crianças pode ser tão ou mais complexo do que criar para adultos, e Ana Maria Machado mostra em seu livro que leva seu trabalho como autora infantil muito a sério.

Silenciosa algazarra é uma leitura reflexiva e interessante para quem gosta de ler, se interessa pela educação e formação de leitores, e muito importante também para educadores. O que Ana Maria Machado mais comenta em seus textos é como a literatura é uma herança valiosa que não deve ser esquecida, e de como seu ensino deve ser repensado para que os jovens entendam que há prazer na leitura de livros, mesmo que eles não se tornem leitores assíduos quando forem adultos. A cultura brasileira ainda coloca a literatura na lista de práticas elitistas, que é distante da nossa sociedade e, por isso, desinteressante, sem valores agregados, enquanto ela é justamente o contrário. Depois dessa leitura, não há quem diga que a literatura não tenha alguma importância em nossas vidas.