acima-de-qualquer-suspeitaUm promotor público do Condado de Kindle conta como inicia as sessões nos julgamentos em que representa o estado. Ele se dirige aos jurados, apresentando o réu e dizendo a eles o que espera que façam no tribunal: deliberar sobre a culpa ou a inocência do acusado. Este promotor é Rusty Sabich, e não há forma mais pertinente de abrir um thriller jurídico do que mostrando a principal atividade de um promotor: reunir provas e acusar. Porém, em Acima de qualquer suspeita – livro que alçou a carreira literária de Scott Turow, traduzido no Brasil pela editora Record – esse homem não vai exercer seu trabalho, mas sim ser confrontado pela própria atividade com que ganha a vida, invertendo o papel de promotor para réu.

Sabich teve uma infância conturbada por conta do comportamento violento do pai, e depois de passar pela polícia alcança o patamar de segundo-homem da promotoria do condado. Acima dele está apenas Raymond Horgan, disputando a reeleição como chefe da promotoria contra Nico Della Guardia, um rival aos olhos de Rusty. Ele, então, praticamente chefia a promotoria enquanto seu chefe busca a reeleição, e não bastassem as funções acumuladas, deve tratar de um caso ainda mais delicado: o assassinato de Carolyn Polhemus, uma colega advogada com quem mantinha um relacionamento extraconjugal. Encontrada morta em sua casa com sinais de estupro, Horgan e Rusty vêem a solução desse caso como fundamental não apenas por se tratar de uma conhecida de ambos, mas por garantir a reeleição do promotor-chefe.

Se o objetivo de Turow fosse apenas desvendar um crime violento, reunindo pistas e fazendo investigações, Acima de qualquer suspeita seria só mais um thriller normal. O autor coloca muito mais do que a básica investigação no livro, e transforma seu protagonista “homem da lei” em suspeito número um do assassinato de Carolyn. As provas reunidas apontam para Rusty e seu relacionamento com ela, e toda a trama gira em torno dos esforços dele e de seus advogados em provarem o contrário diante do júri.

Narrado em primeira pessoa, o protagonista não economiza palavras para dizer ao leitor – ou seu psicólogo – tudo o que sente enquanto investiga o caso, deixando claro sua inocência, mas mantendo o mistério sobre como vai escapar das provas que parecem tão conclusivas e, também, descobrir o verdadeiro assassino.

Turow escolheu narrar no presente, no máximo trazendo algumas lembranças essenciais para a história de Rusty apresentadas em seus diálogos e devaneios enquanto mostra ao leitor tudo o que acontece em sua vida, destacando seu abalo emocional. Ele age como se o leitor fosse o júri e ele estivesse no tribunal testemunhando em sua defesa. Para entender sua ligação com a vítima, Rusty escancara seus sentimentos e sua obsessão pela advogada, uma mulher sedutora e competente, mas que usava  mais o corpo do que o trabalho para alcançar a posição que desejava dentro da promotoria. Estando dentro da cabeça do protagonista, não há como não compartilhar das dúvidas e da melancolia que invade Rusty diante da confusão em que sua vida se transforma com a suspeita.

O tribunal é o cenário de boa parte do livro, logo a sustentação oral de promotores e advogados de defesa, e os relatos das testemunhas, vão apresentando aos poucos os detalhes das investigações e as teias da corrupção que envolvem as personagens. A rotina desse meio, muito bem detalhada por Turow, coloca todo o peso do livro na argumentação de cada personagem, e as reviravoltas estão no desempenho das testemunhas, bem ou mal conduzidas, e nas conclusões inspiradas dos promotores e advogados. É quase como um ballet entre acusação e defesa que vai revelando sutilmente as relações da vítima, as intrigas políticas e a corrupção do sistema judiciário do Condado de Kindle.

Turow sabe explorar a tensão do ambiente de um tribunal e manter o mistério até o final. Acima de qualquer suspeita é um só início das histórias que Rusty Sabich protagoniza, um começo bem interessante que deixa aquela curiosidade sobre como ele seguirá sua carreira em seu próximo livro, O inocente. Colocando um homem que preza pela lei e verdade na pele de um réu, passando por um forte baque emocional e profissional, Scott Turow consegue criar uma personalidade forte que sabe fazer com que o leitor se identifique e compre sua versão dos fatos sem questionamentos.