esse-inferno-vai-acabarLer as crônicas de Humberto Werneck publicadas no livro Esse inferno vai acabar (Arquipélago Editorial) me fizeram pensar em algumas coisas. Primeiro, em quantas pessoas interessantes (e estranhas) o autor eternizou nesses textos, todas resgatadas de sua memória. Depois, em como momentos importantes ganham um ar de simplicidade na sua mão, e por isso marcam mais. E terceiro, me voltou aquela imagem romântica do jornalista que vive e vê momentos inesquecíveis em horários ingratos de trabalho, estressantes, mas invejado ao ter contato com essa rotina através das experiências do autor. Entretanto, não vou me deixar levar pelas palavras bonitas de Werneck e reacender o meu interesse pelo jornalismo, vou me contentar apenas em ter lido ótimas crônicas e falar sobre elas.

Três páginas são espaço o bastante para Werneck relatar seus estranhos casos familiares, os dias de redação no Jornal da Tarde, Jornal do Brasil ou ainda nas revistas Veja, IstoÉ e Playboy. E claro, falar de desconhecidos ilustres com quem topou nas ruas de São Paulo ou Belo Horizonte, de onde vem muito de suas crônicas. Essas três páginas – às vezes com um acréscimo de parágrafos, dependendo da importância do tema do texto, como no caso da juventude da presidente Dilma –, passam rápido e pedem para serem lidas novamente, pois o que o jornalista contou merece uma segunda leitura para apreciação. Se alguma personagem incomum de Werneck passou sem muito alarde, ela pode acabar reaparecendo em outro texto. Que o diga a prima Solange, a que gosta de falar difícil e desenterrar o maior número de palavras possíveis do dicionário. Afinal, se elas estão lá escritas, devem ser usadas, e essa mania rendeu bons textos para Werneck.

Fazem parte do livro as crônicas sobre uma vizinha de família tradicional que anuncia a existência um tarado atacando mulheres do bairro. Ela volta depois, indignada com a notícia de que o homem poderá viver até os 150 anos com os avanços científicos – o que fazer com tanto tempo de vida? E reaparece de novo com o pressentimento de que irá morrer – “outro dia na TV um bonitão piscou insinuante e lhe fez a inequívoca proposta: vem pra caixa você também!” Ainda conhecemos seus outros vizinhos que mereceram duas crônicas sobre as suas esquisitices e sons involuntariamente ouvidos através das paredes dos prédios. Tudo rende um texto, uma memória que merece ser colocada no papel – e publicada para quem quiser ler.

A família Werneck é outra fonte de personagens incomuns, tios, primos, avós e tataravós que tiveram alguma importância pouco reconhecida na história e são resgatadas pelo cronista. Há o avô prefeito do Rio de Janeiro ainda capital do Brasil, os antepassados e suas riquezas, uma árvore genealógica tão farta que não dá sossego para o primo Ruy, que cataloga quem casou com quem, quem é filho de quem… Não faltam momentos familiares para alimentar páginas de crônicas. Assim como não faltam aquelas sobre sua profissão, que trazem as frases de efeito em momentos de desespero contadas de forma bem humorada em uma crônica sobre as “clínicas de envelhecimento precoce” que são as redações; ou então as perguntas estranhas sobre assuntos aleatórios que eram exigidas em uma entrevista com alguém ilustre. Esses textos oscilam entre o alívio e a saudade: alívio por não viver mais essa rotina, saudade porque, apesar dos pesares, foram momentos marcantes de aprendizado vividos com pessoas igualmente importantes.

Esse inferno vai acabar ainda abriga muitas outras histórias e personagens. Humberto Werneck aproveita bem o que cada momento ou pessoa tem para ser contado, e faz isso sem esgotar o assunto: elas podem voltar a qualquer hora com outro olhar, ou uma nova particularidade que as deixem interessantes. A memória é um arquivo vasto cheio de histórias, e lembranças todos têm, basta saber resgatá-las. E além de fazer isso, Werneck sabe melhor ainda como contá-las.