nos-passaremos-em-brancoPara quem sempre leu crônicas, contos e romances ambientados em Porto Alegre – culpa do grande número de autores gaúchos na minha estante –, o livro Nós passaremos em branco, de Luís Henrique Pellanda, veio para me apresentar um lugar que pouco conheço: Curitiba. A capital paranaense, que eu sempre considerei exemplo de cidade limpa, organizada e com ótima qualidade de vida, é detalhada nesse livro pelas características não tão lisonjeiras. Nos textos do jornalista, figuram as prostitutas, os mendigos, os trambiqueiros, pessoas que toda cidade grande guarda e que, apesar de evitarmos olhar para elas, tem histórias que rendem para a literatura, ou, nesse caso, para uma singela crônica.

O livro faz parte da série Arte da Crônica, publicada pela Arquipélago Editorial, que junto com Pellanda também lançou Esse inferno vai acabar, de Humberto Werneck. No caso de Nós passaremos em branco, a maior parte dos textos foram publicados no site Vida Breve, com quem Pellanda dividia espaço com Eliane Brum e outros autores – o projeto, aliás, foi encerrado na semana passada. Com a objetividade e a literariedade que as crônicas exigem – na minha visão –, Pellanda atua quase como um ladrão de histórias alheias. Os textos surgem de conversas entreouvidas em bancos de praças do centro de Curitiba, onde se passam boa parte dos casos relatados por ele, ou então em mesas de restaurantes vegetarianos, na espera de um vôo em um aeroporto, enfim, lugares por onde o autor passa diariamente e recolhe inspiração para escrever.

Essas histórias são vistas pelo autor, às vezes, como meros relatos insignificantes que rendem apenas essa inspiração para a crônica, que também não se fixará por muito tempo na mente daqueles que a lêem – o que não é verdade. Todas guardam sua beleza e evocam a imagem do autor com a menina no colo – sua filha, que aparece em muitos dos textos sendo levada ou trazida de volta da escolhinha –, ou então como uma sombra em algum canto enquanto observa essas histórias do cotidiano curitibano. Um cotidiano estressante, povoado de pessoas individualistas e egoístas que nem notam ou imaginam que aquilo que evitam ver acabará se transformando em crônica publicada na internet e, posteriormente, em um livro.

Não é só de vidas alheias que Pellanda se alimenta para compor seus textos. Pequenos acontecimentos ativam sua memória e o transportam para seu passado, que o faz relatar experiências que o marcaram, sendo ele o protagonista ou apenas um coadjuvante – em uma delas, inclusive, Curitiba nem é o cenário. Assim o leitor tem contato com suas peripécias adolescentes – do início de sua vida afetiva aos dias de banda – e com a rotina de jornalista que renderam acontecimentos peculiares. O livro se encerra com a “antologia dos demônios de Curitiba”, crônicas que falam de entidades endiabradas que infernizam o centro da cidade, mas que são fundamentais para a sua sobrevivência: o que seria de Curitiba sem as “bundinhas” distribuídas pelas calçadas, ou os cantores crentes e os palhaços-sombra? E sem o Natal do HSBC, tema de uma das crônicas que poderia estar inclusa também nessa antologia?

Os detalhes mais insignificantes e obscuros da cidade são a fonte de Pellanda, e por mais que sejam incômodos aos moradores de Curitiba, são fundamentais para a existência dessas crônicas. Verdadeiras ou não as histórias coletadas pelo autor, todos os textos de Nós passaremos em branco tem aquela frase marcante, uma reflexão que timidamente se mostra ao leitor enquanto esses casos se desenrolam e trazem uma imagem diferente da cidade além daquela bonita, limpa e organizada capital.