o-inocenteRusty Sabich pode ser chamado de figurão dos tribunais de Kindle County. Absolvido de uma acusação de assassinato há 20 anos, hoje ele é um renomado juiz disputando as eleições para presidir a Suprema Corte. Essa é a situação de Sabich em sua volta no livro O inocente, último lançamento de Scott Turow pela editora Record. O autor dá um salto no tempo para colocar seu protagonista novamente em um caso que abala sua carreira e, principalmente, a ele mesmo. Mas diferente do que Turow fez no primeiro livro com a personagem, dessa vez o leitor não fica sabendo dos detalhes desse novo caso apenas através de Rusty, todas as outras pessoas com ações importantes dentro dessa trama emprestam seu ponto de vista para que as peças de um novo crime sejam reunidas.

O conflito de O inocente surge quando Rusty acorda ao lado de sua mulher, Barbara, e nota que ela está morta. Ao invés de tomar as medidas normais – chamar uma ambulância e a polícia –, o juiz fica paralisado durante 24 horas ao lado do corpo da mulher, sem nem mesmo avisar Nat, filho único do casal. Aparentemente morta por causas naturais, a história poderia ter acabado aí: a inatividade de Rusty é facilmente explicada como choque pela perda. Porém, não é isso o que pensam Jimmy Brand e o velho “inimigo” de Rusty, Tommy Molto, promotor que o havia acusado de ter matado uma ex-colega de trabalho. Além dessa morte, Turow coloca outros elementos na trama que abalam a vida de Sabich, como um novo caso extraconjugal com Anna, sua ex-assistente, a bipolaridade de Barbara e a sensibilidade de seu filho. Alternando o capítulo entre vários narradores, Nat, Rusty, Anna e Tommy vão aos poucos fornecendo as pistas que ora pendem para o lado da acusação, ora para a defesa.

Dividido em três partes, O inocente primeiramente cria um ambiente de tensão emocional que envolve todas as personagens. Rusty desabafa sua culpa pela nova traição, a opressão de seu casamento e também a dor que sente de se ver apaixonado por uma mulher com quem nunca poderá assumir nada. Enquanto isso, Tommy, meses adiante, recebe com dúvidas as desconfianças de Brand de que o juiz teve participação na morte de sua esposa, com receio de que o caso seja visto como uma vingança pela derrota do passado. Logo depois, Anna e Nat assumem a narrativa e contam como ambos acabam se relacionando também, deixando a situação familiar dos Sabich ainda mais complicada. Apenas na segunda parte do livro é que Turow entra na sua especialidade: o tribunal. Aqui leitor mergulha dentro das sessões em que Sabich está novamente diante de um júri, com a diferença de que isso não é mostrado do seu ponto de vista, apenas através de Nat, Tommy e, em poucos momentos, Anna. Rusty volta a narrar apenas na última parte, quando boa parte dos mistérios são revelados.

Essa estrutura que Turow escolheu para seu novo livro funciona para que a trama não seja “mais do mesmo”. Afinal, o enredo segue praticamente a mesma linha de Acima de qualquer suspeita: Sabich é acusado injustamente da morte de uma mulher, vai ao tribunal e o leitor assiste a todo o baile de argumentos que surpreendem nas reviravoltas inteligentes dos advogados. Com os diferentes narradores, o autor pode trabalhar melhor os mistérios do livro mantendo mais informações em segredo. No primeiro livro, o leitor tem certeza da inocência de Sabich, já em O inocente ele é acompanhado pela dúvida em todas as páginas. O único porém são os capítulos que trazem a visão de Tommy Molto. Diferente de todos os outros, não é a personagem quem narra, mas sim um narrador em terceira pessoa, não identificado. Não consegui entender o porquê dessa diferença, pois considero o promotor uma personagem totalmente capaz de assumir sua própria história. Poderia ser qualquer outra pessoa vendo através de Tommy, mas não há explicação sobre como ela tem acesso a todas essas informações sobre a vida pessoal e profissional do promotor.

Apesar disso – e de algumas escorregadas na revisão do texto –, a história não é prejudicada, e O inocente segura o leitor entre suas páginas até o final. As personagens estão bem colocadas dentro da história, seus conflitos pessoais e segredos sustentam mais esse thriller jurídico fechado entre as quatro paredes de um tribunal. Scott Turow manteve o mesmo nível que Acima de qualquer suspeita com seu protagonista, que nesse livro se mostra mais sensível e abalado pelos acontecimentos à sua volta. Mais uma vez, um bom thriller para quem gosta da rotina dos tribunais.