ciranda-negraEsses dias, em uma aula na faculdade, um professor falou que a morte, a nossa única certeza, é o que moveu a criação de lendas, mitos e histórias na tentativa de explicá-la – pelo menos é o que acho ter ouvido dele. Incontáveis histórias foram criadas para tratar do fim da vida, outras inúmeras trazem a própria como personagem, é inegável dizer que a morte alimenta a criatividade e o imaginário, pois ao mesmo tempo em que é um fato do qual não podemos fugir, é rodeada de dúvidas que nunca se esgotam, sempre são renovadas. Eni Allgayer, gaúcha autora de livros juvenis e ensaios históricos, apresenta em seu primeiro livro de contos a morte como ponto central. Em Ciranda negra, publicado pela Dublinense, se deparar com a morte é regra para todas as personagens.

Os contos de Eni são ambientados predominantemente na vida rural, do interior do Rio Grande do Sul, mas não deixam de falar também de áreas urbanas e sua relação com a morte, apresentada nesse livro das mais diversas formas. Eni começa dando ao leitor uma ideia das adversidades pelas quais suas personagens passam no conto “A maçã”, em que narra a alegria e satisfação com que uma criança come a fruta, fazendo a história parecer um inocente e feliz momento em sua vida infantil. Mas os bons sentimentos narrados pela autora escondem a podridão do local em que a menina está, surpreendendo com o final melancólico do curto conto. Esse primeiro texto também engana o leitor sobre o que mais Eni tem a contar, pois a morte não precisa ser necessariamente triste, perturbadora ou indesejada.

É o que acontece no conto que se segue, “Segredos”, esse uma história claramente vinda do interior em que o narrador alterna o ponto de vista entre as ações de uma jovem e seus pais. Aqui, a morte é a saída bela e preferível para uma gravidez e casamento indesejados que prenderiam a moça à pequena cidade. Eni contrasta bem a personalidade moderna da jovem com o jeito antiquado de seus pais, ressaltando a tristeza e a indignação de sua família com o que o destino lhe reservou. Essa forma de narrar, com parágrafos curtos divididos entre as personagens – seja em primeira ou terceira pessoa – é repetida pela autora em outros contos que precisam de mais de uma visão para que causem o efeito de surpresa no leitor. É o que acontece no texto que dá nome ao livro, em que personagens sem nenhuma relação aparente se mostram, no final, mais unidos do que o imaginado, fechando a história de forma ainda mais trágica; e também em “Cartão Postal”, um conto sobre vingança.

Loucura também se une à morte em histórias como “O outro” e “Itanhangá”, em que as personagens são controladas por impulsos violentos ou crenças malucas que podem custar a vida de pessoas ingênuas e inocentes. No primeiro, um garoto parte com seu amigo numa aventura até o litoral gaúcho a fim de se tornarem piratas, e pelo colega é mal tratado. No segundo, uma jovem professora vai até uma cidade afastada de tudo e se torna vítima de uma seita que exige sacrifícios humanos. A morte, aqui, passa bem perto desses dois protagonistas. O mesmo poderia dizer sobre “Elisa”, mas esse texto tem um fim muito mais cômico, que traz um homem pobre e sua adoração à jovem rica que sempre amou e, finalmente, pode possuir.

Eni Allgayer soube como abordar a morte das mais diversas maneiras: a desejada, a traumática, aquela que dá sorte, a que traz benefícios… São visões e histórias diferentes daquilo que, como já dito, sabemos que hora ou outra irá nos acontecer. Em Ciranda negra, a morte pode ser tanto abrupta quanto esperada, rápida ou lenta, trágica ou cômica. Para o leitor, são contos que satisfazem, não com todo aquele gosto de genialidade que procuramos na literatura, mas bons o bastante para entreter com seus mistérios e casos improváveis.