os-detetives-selvagensUlises Lima e Arturo Belano podem parecer meros coadjuvantes que uma vez ou outra aparecem na vida de Juan García Madero, a personagem que inicia os relatos através de seu diário em Os detetives selvagens, de Roberto Bolaño. Ok, é só ler a orelha do livro para saber que os protagonistas são Belano e Lima, o que já encaminha a concentração do leitor para as aparições dessas duas personagens. Mas por mais que sabemos que tudo gira em torno dos dois jovens poetas e suas andanças pelo México e também pelo mundo, é impossível não se deixar levar pelas histórias daqueles que conviveram – muito ou pouco – com eles.

O romance inicia no México da década de 1970. Arturo Belano, um chileno, e Ulises Lima, mexicano, são dois jovens criadores do real-visceralismo, um grupo de poetas da capital que passa os dias na boemia enquanto escrevem, leem e discutem a poesia atual do país. Belano e Lima se empenham na investigação da vida e obra daquela que seria a mãe dos reais-visceralistas, a poeta vanguardista Cesária Tinajero, cuja poesia poucos leram e se perdeu nos anos 1920 na revista que havia organizado, assim como sua própria figura, desconhecida de muitos. Dividido em três partes, essa história começa – e termina – a ser narrada por García Madero, um estudante de direito e poeta de 17 anos que se une aos real-visceralistas e conta ao leitor suas novas experiências – a primeira vez, os porres tomados com os poetas que agora segue e o cotidiano do meio artístico da capital mexicana que aos poucos vai descobrindo.

Na segunda parte do romance García Madero “desaparece” e quem assume a narrativa são dezenas de personagens que cedem ao leitor peças que montam uma biografia desses dois “detetives”. Em algum momento da história, Belano e Lima se separam e seguem por caminhos diferentes na Europa, América Latina e África, e suas vidas nessa parte são costuradas por essas pessoas que em diversos momentos desabafam suas próprias histórias, com ou sem alguma ligação com os protagonistas. E é aí que Bolaño prende de vez: a cada nova personagem que aparece, o leitor é fisgado pelas suas palavras, pelos dramas que relatam que parecem não levar a lugar algum dentro dessa trama, mas que mesmo assim possuem algum ar de importância, como se escondessem uma informação crucial para o andar do livro, uma revelação sobre qualquer coisa.

Os detetives selvagens, num olhar bem simplista, poderia ser descrito como um livro cheio de sexo, drogas e bebedeiras com conversas intelectualóides sobre literatura, autores obscuros (para quem não sabe nada de poesia) e alguns dramas básicos da vida – amores não correspondidos, etc. Mas não quero ser simplista e diminuir o livro apenas a isso – que também não é nem um pouco ruim, na minha opinião. O que realmente faz desse romance um livrão (não só em tamanho), é como Bolaño torna interessante todos esses relatos a princípio sem nexo, a forma com que ele retrata esse cotidiano artístico – as idas a cafés e bares e festas –, como as personagens de tão diferentes características se movem e interagem nesse cenário. Mas o mais interessante é como o leitor tem a liberdade, através de todos os depoimentos das outras personagens, de formar a própria imagem dos protagonistas – artistas de talento real ou farsantes miseráveis? O leitor acredita em quem e no que quiser.

Por mais que Os detetives selvagens tenha ocupado dias e dias de leitura – mais que o usual para mim – e feito a fila de livros aumentar consideravelmente, a vontade ao terminar de ler é começar tudo de novo. Ler de forma diferente, trocando as ordens das páginas, agrupando as personagens da segunda parte em grupos, em uma ordem cronológica, ou seja lá de que outras formas elas podem ser classificadas, e tentar reorganizar as peças que montam a vida de Belano e Lima. Como um detetive faria para resolver algum enigma difícil e para tentar enxergar além de uma primeira olhada.