ratosGatos sempre correram atrás de ratos. Esses seres minúsculos e rápidos são uma brincadeira deliciosa para aqueles animais ágeis, preguiçosos a maior parte do tempo e curiosos. A visão de um rato desperta o gato para infinitas possibilidades de brincadeiras torturantes em que, no final, o brinquedinho estraga. Shelley e sua mãe são como ratos, duas pessoas que não passam de objetos medonhos para seus colegas de escola, seu chefe e seu marido e pai. São fracas e não sabem impor suas vontades, engolem as dores e problemas como se fossem apenas delas e não deveriam ser compartilhados com mais ninguém, dando corda para que os gatos continuem suas brincadeiras malévolas sem consequências. Mas até ratos possuem um limite, e em algum momento uma bomba explode e transforma camundongos amedrontados em terríveis ratazanas.

Gordon Reece trabalha os limites do bullying e da humilhação em Ratos, lançado recentemente aqui pela editora Intrínseca. A história se passa numa pequena cidade inglesa quando Shelley e sua mãe, depois da garota ter sofrido meses com as agressões de suas colegas na escola e da separação de seus pais, se mudam para uma casa afastada de tudo à procura da tranquilidade que nunca tiveram. Shelley está marcada pelas cicatrizes das agressões que sofreu, terminando o ano letivo com aulas particulares em casa depois de entrar em acordo com a diretoria da escola. E sua mãe tenta levar a vida adiante e se sustentar em um emprego que lhe paga pouco e exige demais, colocando culpa nela mesma pela sua decadência profissional – de advogada talentosa que abandonou a carreira a uma simples assistente de um escritório.

Depois dos horrores que Shelley narra ao leitor, ela e a mãe passam a ter dias maravilhosos nesse chalé cercado por jardins e árvores que parecem protegê-las dos perigos do mundo real. Estudiosa e concentrada, Shelley almeja boas notas em seus exames para dar sequência aos estudos e ingressar na faculdade. Mas a calma alimentada pelas duas é desfeita no dia do 16º aniversário da adolescente: os ratos voltam a ser perseguidos pelos gatos. O chalé onde vivem é invadido por um jovem bêbado e desorientado, e a reação inesperada dessas duas mulheres frágeis despertam um lado delas que nunca imaginaram ter. Os ratos, finalmente, ganham dos gatos. A partir desse acontecimento, Reece segue o livro mostrando a gradual mudança na personalidade das personagens durante os dias seguintes, marcados pela insegurança e o medo de serem descobertas.

Ratos deveria causar no leitor certo horror e compaixão pelas personagens, tão inseguras e medrosas e incapazes de qualquer reação frente às críticas e xingamentos que recebem. Porém, falta alguma coisa para que ele realmente se sensibilize com a história. A narração toda é feita por Shelley, que detalha cada agressão que recebe e como reage sozinha a elas, no máximo compartilhando-as com a mãe. O livro é preso às suas percepções, e apesar das mudanças que aos poucos se instalam nas duas, não há um desenvolvimento psicológico das personagens mais concreto. Shelley nem ao menos especula como se dá essa mudança, apenas relata os acontecimentos que vão sucedendo depois daquela noite e que lhe causam certo pavor, desconforto e prazer. No máximo, ela pensa que a mãe está passando pelas mesmas mudanças, mas não passa de uma conclusão causada pelo reflexo de sua própria personalidade. Não há nenhum diálogo com algum outro personagem que possa trazer um olhar “de fora” e acrescentar mais informações para o leitor.

Em Ratos, as personagens se trancam em seu mundo e não permitem que ninguém entre nele, e assim tornam-se limitadas. Reece consegue manter a curiosidade sobre o futuro de mãe e filha depois daquela noite de horrores, porém as soluções que ele dá para os conflitos – até mesmo as novas barreiras que ele coloca no caminho das duas – parecem ser precipitadas demais. Essas reviravoltas até sustentam o livro, mas não chegam a ser surpreendentes.