historias-para-quem-gosta-de-contar-historiasHistórias para quem gosta de contar histórias é um livro que deixa dúvidas: é escrito para o leitor ou para o próprio autor? Ele, Cássio Pantaleoni, diz na contracapa que é inegável o fato de que gostamos de ouvir e contar histórias – uma justificativa simples para o porquê de ele escrever. Nessa apresentação, aliás, o autor justifica a própria escrita: ilustrar acontecimentos mundanos deixando-os mais “coloridos”, trazer histórias sobre prazer, angústia e outros aspectos cotidianos revividos através do seu estilo. Assim, é de se pensar que o livro foi feito para ele mesmo, para aproveitar em uma edição bem acabada (da editora 8Inverso) as histórias que primeiro figuraram em folhas soltas de papel – ou num documento do Word.

Mas o leitor não é esquecido por Pantaleoni. Os 20 contos que preenchem cerca de 100 páginas são bons entretenimentos – como o próprio autor sentencia, dizendo que pelo menos isso pode ser tirado do texto –, mas melhores aproveitados se lidos em doses homeopáticas. No livro a história fica, na verdade, em um segundo plano. O que salta aos olhos é o estilo de Pantaleoni: uma narração musicalizada, com palavras cuidadosamente escolhidas e frases rimadas, perfeitas para se ler em voz alta apreciando o seu som. Isso fica acima dos enredos, tramas simples que exploram a sexualidade – como em “Despantalhamundo”, “Casa de Menina” e “Vai, Fontinha!” –, acontecimentos cômicos e momentos melancólicos – a angústia de um casamento sem sentimentos em “Para não passar em branco”, um enterro visto pelos olhos de um menino em “O Abismo”, uma vida dupla em “Substituição”.

Se o texto é cuidadoso e musical e as tramas possuem temas interessantes, por que é melhor ler em partes, e não de uma vez só? O que Pantaleoni disse sobre escrever do seu jeito foi levado a sério. Todos os contos têm esse ar lírico, e para o leitor, depois de 5, 10 ou 20 textos – sim, é um livro fácil de ler “em uma sentada” – fica a impressão de que tudo se repetiu e nada o marcou. O estilo acima da história tira a atenção do que está sendo narrado, deixando em evidência a forma. Mas a forma, assim tão repetida, pode cansar e tirar o brilho que os contos escondem. Já a história rapidamente se dispersa, como se fosse apenas uma desculpa para escrever bonito.

E escrever bonito é um problema? De forma alguma. Cássio Pantaleoni não escreve mal, não mesmo. Ele consegue muito bem, por exemplo, misturar à sua linguagem rebuscada alguns termos coloquiais que humanizam as personagens. O problema está, realmente, em colocar as palavras bonitas acima do desenvolvimento dos enredos. Histórias para quem gosta de contar histórias fica registrado como um livro bonito que entretêm, mas não permanece na memória do leitor por muito tempo.