Nos últimos meses, a tal Era do Jazz parece ter voltado a ser interesse de editores e leitores. Um filme de Woody Allen que trouxe um ambiente mágico com grandes figuras dos anos 1920 se divertindo por Paris – filme que, aliás, fez os livros desses escritores esgotarem nas livrarias –, e o anúncio de novas adaptações por vir certamente contribuíram para que os holofotes se voltassem para a literatura dessa época. Que o diga F. Scott Fitzgerald, que em um mesmo mês teve sua mais famosa obra reeditada por duas editoras brasileiras, L&PM e Companhia das Letras. Para ler O grande Gatsby, que figurava há muito tempo na lista de livros que eu queria encarar, acabei escolhendo a tradução de Vanessa Barbara da editora paulista.
O livro é narrado por Nick Carraway, um homem em seus quase 30 anos que relata a trágica história de amor entre Daisy e Jay Gatsby em Long Island do início do século XX. Gatsby é um homem rodeado por mistérios, ninguém sabe exatamente o que ele faz, de onde veio e, principalmente, de onde vem a fortuna que usa para manter a casa e as festas que promove em West Egg. Carraway, seu vizinho e primo de Daisy, é quem conquista a confiança de Gatsby, e aquele a quem ele recorre para reencontrar quem amou no passado, agora casada com Tom Buchanan e morando em uma mansão no outro lado da baía, em East Egg. O romance é curto, porém com uma densidade que arrebata o leitor para a tragédia iminente que se anuncia conforme Daisy e Gatsby se reaproximam.
Fitzgerald consegue nesse breve livro aprofundar as características de suas personagens como poucos. O leitor percebe essa profundidade através do olhar do narrador, que confere aos diálogos que assiste elementos além da própria fala, com uma sensibilidade para perceber o estado de espírito de cada um. Assim, vemos Daisy como uma mulher indecisa quanto ao que sente, desesperada no casamento infeliz e infiel, mas também assustada com Gatsby, incapaz de abandonar sua vida de riquezas para voltar a quem gostou no passado. Tom parece igualmente desesperado, possessivo e arrogante com a esposa e também desolado com a ideia de perdê-la. E Gatsby é um homem que nutre sua antiga obsessão, quase ingênuo por acreditar que Daisy não poderia amar ninguém além dele, alimentando um sonho antigo de poder partilhar a vida ao lado dela, algo que, mesmo agora rico e morando próximo dela, parece inalcançável.
A edição da Penguin-Companhia das Letras traz ainda uma introdução do crítico literário Tonny Tanner que disseca o romance em partes para evidenciar as características biográficas de Fitzgerald dentro do livro, como as personalidades que serviram de inspiração para as suas personagens. E, claro, relaciona O grande Gatsby com o momento pelo qual os Estados Unidos passava – a Lei Seca de 1920, que promoveu riqueza aos contrabandistas de bebidas e cujos boatos ligavam Gatsby ao comércio ilícito – e as opiniões do autor sobre o que se reservava ao seu país. Logo, o romance guarda muito mais do que uma história de amor que envolve a alta sociedade e a obsessão que o leva a alcançar status suficiente de riqueza para finalmente poder ter a mulher que deseja.
Nick Carraway é no meio disso tudo a pessoa sensata que observa os acontecimentos entre deslumbrado e escandalizado com o tratamento que essa sociedade confere à Gatsby, o que fica evidenciado no fim do livro. Se não fosse Nick e sua inexplicável admiração pelo protagonista – que depois das dúvidas quanto a seu caráter é visto como alguém digno de pena consumido pelos seus desejos não realizados – essa história não estaria sendo contada. Por estar no meio desse furacão de emoções e intrigas, Nick é o único que poderia dar a melhor visão sobre essa história. O grande Gatsby é um romance de leitura rápida e envolvente que provoca em quem lê compaixão pelo protagonista, um retrato dos tempos de riqueza dos Estados Unidos, mas onde nem o dinheiro é capaz de salvar alguém de um final triste e solitário.
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Ano passado durante uma viagem comprei o livro, em sua versão original em inglês, e o separei para lê-lo quanto estivesse mais calma. Depois de tanto ouver falar sobre o livro, de passar alguns anos ensaiando sua leitura, queria transformar essa leitura em um evento. Estava super ansiosa e esperava amar o livro!
Mas não foi bem assim… Não me conectei aos personagens ou ás ideias transmitidas. E acabei me frustrando. Honestamente, acho que vou precisar reler O Grande Gatsby para realmente assimilar todas as sutilezas desse enredo.
Entendo esse sentimento, Marina. Acho que são expectativas altas demais, tu esperando algo maravilhoso, algo revelador, quando não tem nada disso. O livro tem sua importância por retratar aquela época, por ser inovador na sua publicação, essa é a força do clássico, mas não vai, necessariamente, mudar sua vida. Poucos livros mudam vidas. O problema de esperar demais é que o desapontamento é sempre maior.
Mas releia, é um ótimo livro, não custa nada dar outra chance, mas dessa vez com expectativas mais baixas e apreciando a leitura em si, não esperando por algo maior =)
Izzie, normalmente não crio expectativas com livros, mas com esse livro foi quase “inevitável”. Afinal, é tanto “hype” em torno dele que a gente acaba sendo consumida. Mas não desisti e depois que essa primeira – e má impressão – passar vou reler o livro.
E falando em expectativas, tive o prazer de ler um livro ano passado que me surpreendeu. Comprei por causa do título (motivo bobo, mas deu certo!) e comecei a leitura sem nenhuma expectativa. E me apaixonei! Um dos melhores livro contemporâneos que li nos últimos tempos. Se chama “A Elegância do Ouriço”, da francesa Muriel Barbery. Quando puder, o inclui na sua lista de leitura!
Pergunto-me se ainda é possível para nós, homens, manter tamanha esperança romântica na mulher, a mesma esperança alcançada por Fitzgerald em “O GRANDE GATSBY”, “SUAVE É A NOITE” ou até mesmo no roteiro que assinou para o filme dirigido por Richard Brooks, nos anos 50, “The last time I saw Paris.” Antes havia um mistério, um toque de inacessibilidade que só estimulava o desejo. Dos anos 60 pra cá, essa aura foi sendo lentamente trucidada por infindáveis revoluções culturais.
“Suave é a noite” é um grande livro de… psiquiatria (e não há qualquer demérito nisso.) Mas o melhor romance de Fitzgerald é mesmo “O Grande Gatsby”. Ler este clássico, ao som de Lady Day (“Strange fruit”) é um prazer.
Como foi um prazer encontrar este blog.
Oi, Arsenio!
Igual para nós, mulheres, mantermos alguma esperança romântica nos homens, e se conseguimos isso, não é difícil o mesmo no caso das mulheres. =P
Romantismo é bem diferente de “fazidisse” (se a mulher quer dar, que dê, resumindo hahahaha).
Preciso muito ler outros livros do Fitzgerald, fica aí a verdade.
E obrigada pela visita ^^
ehehe, é isso aí Taize. O mesmo pensamento, na mesma moeda. Justíssimo.
“Suave é a noite” é um livraço. Para ler e reler. Abraços