o-fantasma-de-cantervilleNo fim do século XIX, na Inglaterra, a família de um diplomata norte-americano, os Otis, ignora todos os avisos da região e decidem comprar a Reserva de Caça Canterville, uma propriedade assombrada há 300 anos por um misterioso fantasma. O diplomata, sua esposa, seu filho mais velho, a filha do meio e seus dois gêmeos, educados no estilo prático dos republicados dos Estados Unidos, não deram a mínima para as antigas lendas inglesas que, para eles, não passavam de invencionices. Mas O fantasma de Canterville (1891) é real, como bem mostra Oscar Wilde nesse conto que, por trás da fantasia, esconde ácidas alfinetadas nas mudanças do fim de século pelas quais a sociedade norte-americana e inglesa passaram.

O conto ganhou recentemente uma nova edição no Brasil pelo selo Eternamente Clássicos da editora Leya/Barba Negra, claramente buscando atingir um público mais jovem através da arte que lembra os filmes de Tim Burton e das cores chamativas na sua capa. A edição ainda é complementada com ilustrações de Wesley Rodrigues que lembram mais rascunhos que desenhos, e encaixam perfeitamente na proposta gráfica do livro. Após a compra da mansão dos Canterville, na primeira noite o fantasma se revela aos Otis, mas ao contrário do que qualquer pessoa que teme pela morte faria, nenhum membro da família se sente abalado pela aparição de Sir Simon Canterville.

A praticidade e o materialismo da família a leva a enxergar o fantasma apenas como um hóspede inconveniente que não os deixa dormir, inclusive procurando meios materiais para que Sir Simon os deixe em paz. Porém, os gêmeos pestinhas passam a provocar o fantasma pregando-lhe peças, fazendo o espectro entrar em um estado depressivo e amedrontado, o oposto do que deveria acontecer. O fantasma passa, então, a temer os vivos quando todas as suas tentativas de assustá-los dão errado. Nem os mais elaborados disfarces malévolos são capazes de abalar os Otis. A entidade que antes era má e responsável por atos perversos se transforma, então, em um ser digno de pena, com toda a sua tradição em assombrações ignorada.

Oscar Wilde faz uma boa definição de que tipo de pessoa são os Otis através do fantasma: “Eram, evidentemente, pessoas que estavam em um plano inferior, materialista, da existência, totalmente incapazes de apreciar o valor simbólico dos fenômenos sensórios”. Aqui se percebe a crítica do autor a uma sociedade industrial que se prende ao que é material, ao consumo, sem espaço para o lirismo, o belo e o sentimento. A crueza do tratamento que essa família dá ao pobre fantasma acaba por minar suas forças, dando fim à fantasia, à arte. O próprio fantasma carrega em si características próprias dos ingleses da época que são criticadas por Wilde, como a visão de superioridade por ser antigo, ter sangue azul.

O fantasma de Canterville é um conto de leitura prazerosa que mostra a ironia característica que Oscar Wilde usou em seus textos. Nele, tanto a sociedade britânica, com toda a sua pompa ligada à tradição e superioridade, quanto a norte-americana ganham críticas inteligentes por parte do escritor, e o conto mostra ser muito mais do que uma curiosa e diferente história de fantasmas. Ao falar da desvalorização da arte, Wilde foi autor de grande obra que até hoje é lida e reverenciada como literatura de qualidade, clássicos que não são desprezados como os Otis fizeram com o fantasma de Canterville.