14-contos-de-kenzaburo-oeAo falar da literatura japonesa na introdução de 14 contos de Kenzaburo Oe, Arthur Dapieve destaca o talento desse povo em dizer muito usando poucas palavras. Ou seja, da forma que os japoneses, como sociedade em geral e não só seus escritores, dizem tanto sobre suas dores e problemas quando justamente silenciam. É estranho pensar na literatura como algo que se destaca pelo silêncio, pela ausência de palavras, sejam ditas ou escritas, justamente na abertura de uma coletânea de contos de um dos maiores escritores japoneses, ganhador do Nobel de Literatura em 1994. Ainda mais que Kenzaburo Oe não esconde nenhum desses dramas dentro dele mesmo, mas confere à suas personagens certa dificuldade para falarem de seus problemas – e, por isso, o talento da narrativa se faz indispensável para que o leitor veja o que elas não dizem.

14 contos de Kenzaburo Oe reúne textos do autor escritos entre 1957 e 1990, selecionados e traduzidos por Leiko Gotada nessa edição publicada pela Companhia das Letras. Nesses contos, um pouco da História e questões sociais do Japão estão presentes, passadas para a ficção quase como se fossem fantasia e, mais do que tudo, o próprio autor está dentro desse livro. E assim como Dapieve encerra a introdução da edição dizendo que a obra de Oe trata da “dignidade do ser humano”, o primeiro conto – ou melhor, roteiro – do livro traz essa questão como ponto central. Mas diferente da história absurda marcada por desencontros, comunicação falha e final feliz encontrado nesse primeiro texto, os outros 13 contos do autor se aprofundam mais e mais em retratar o homem e suas tragédias.

Em “Salte sem olhar”, um jovem estudante de literatura francesa – jovens estudantes de literatura francesa são, aliás, personagens constantes em outros contos – fala da relação tranquila, mas inquieta, com uma prostituta de quem é amante há muito tempo. Mas apesar dos desejos e de algumas ambições, ele pouco faz além de viver seus dias na mesma rotina de sempre: frequentar aulas, ficar com sua amante e sair com seus clientes. De olhar a vida, mas nunca saltar diretamente para ela. Ao detalhar cada ato e pensamento do estudante, Oe vai aprofundando essa inquietação que surge da falta de ação – falta da coragem de “saltar sem olhar”.  Com esse conto sim o leitor entra dentro do “espírito” de Oe e tem pela frente textos que tratam da morte, do abandono e de traumas que assombram a vida das personagens, do próprio Oe e do Japão.

Personagens marcadas pela loucura são quase tão constantes como os tais estudantes de literatura francesa, como em “Os pássaros”, em que um jovem acredita ser rodeado por aves que lhe protegem da realidade. Em “A convivência”, em que um rapaz recém formado na faculdade acredita dividir seu quarto com quatro macacos que o observam e atormentam a todo instante. E também em “Aghwii, o monstro celeste”, sobre um homem que conversa com um bebê gigante que vem do céu – imagem essa que representa o filho deficiente que esse homem matou. Essas histórias trazem fantasias criadas por personagens que as usam para escapar de uma realidade dura, inaceitável e, na visão deles, insuportável. As suas invenções os protegem de lembranças ou desafios que preferem nunca ter de enfrentar.

A sexualidade não pode deixar de ser comentada dentro da obra de Kenzaburo Oe. Em quase todos os contos, há uma tensão sexual que movimenta as personagens, no estudante e sua amante; no diretor cinematográfico e sua jovem atriz, em “Exultação”; no adolescente onanista que de simpatizante da esquerda se torna um extremo-direitista, em “Seventeen”. E, principalmente, em “O homem sexual”, a história de um homem que esconde a homossexualidade da segunda mulher e, depois dela revelada, procura satisfazer-se de outras formas – sendo a última delas a transição de homossexual a molestador de mulheres. Kenzaburo Oe usa em seus contos uma linguagem livre para falar sobre a sexualidade, suas variantes e taras, contrastando com o moralismo, os preconceitos e os tabus da sociedade japonesa – e porque não também ocidental – que são a causa dos conflitos dessas personagens.

Nos dois últimos contos, “Viver em paz” e “A dor de uma história”, Kenzaburo Oe toma emprestada a voz de sua filha do meio para retratar um cotidiano familiar permeado por cuidados com o filho mais velho, portador de uma deficiência mental, discussões e descobertas sobre literatura e pequenos acontecimentos ocorridos enquanto vivia com sua mulher na Califórnia, registrados pela filha nos diários da casa. O último conto fala principalmente sobre o uso que o autor faz da ficção para colocar nela a realidade que percebe. E essa realidade, por mais difícil, feia e intragável que seja, dentro do texto de Oe, com suas palavras, ganha uma beleza difícil de definir, pois choca ao mesmo tempo que encanta – as descrições das maneiras de molestar mulheres em público, por exemplo, causam mais admiração que espanto. 14 contos de Kenzaburo Oe, para os que já conhecem, é um livro a acrescentar mais na leitura da obra desse autor. Já para os iniciantes, como eu, é uma bela porta de entrada para a literatura japonesa e, claro, para a produção de Oe.