asterios-polypJá falaram muito sobre a forma, os traços, as linhas, o desenho, a composição, as referências à arquitetura, à Grécia e sua mitologia e tudo o mais que podemos encontrar de bom em Asterios Polyp. A nova e surpreendente obra de David Mazzucchelli, vencedora dos prêmios Eisner e Harvey (e aqui publicada pela Quadrinhos na Cia.), chegou até mim carregada de elogios à sua beleza gráfica, ao uso incomum das cores, aos traços ousados e ao cuidado do quadrinista ao utilizar tudo o que o gênero permite para contar uma história – cada elemento de suas páginas é fundamental e faz parte da narrativa. Mas o que nenhuma indicação ou resenha me disseram sobre Asterios Polyp – ou o que eu não vi, procurando apenas por comentários sobre a forma – é que ele narra uma história de amor e perdas.

Asterios é um arquiteto “de papel”, um profissional renomado que nunca teve um de seus projetos construídos, mas é muito reconhecido pelas suas teorias e pela carreira acadêmica como professor em Ithaca. Ele é um homem que pode ser descrito como possuidor de linhas retas, bem planejadas e duras, tudo em sua vida segue à risca a regra da utilidade. O mundo, para ele, é dividido em dois: o útil e o inútil, o bonito e o feio, o vencedor e o perdedor. Ele é o vencedor – o gêmeo que viveu, que prosperou. Mas isso vemos apenas no transcorrer da história. No início da HQ, Asterios é só um homem desgraçado, deitado na cama enquanto tudo à sua volta está de pernas para o ar, até que um raio atinge seu apartamento. Na pressa de sair para escapar do fogo, leva consigo apenas três objetos: um relógio, um isqueiro sem fluido e um canivete suíço. O resto do apartamento e toda a sua vida ele deixa ser consumido pelas chamas.

E é aqui que Asterios passa a reviver toda a sua vida, ou melhor, a avaliar tudo pelo que passou. Com o dinheiro que lhe restava, foi morar em uma pequena cidade no interior onde arranjou emprego e abrigo com um mecânico, sua mulher e seu filho pequeno. Ninguém sabe quem é Asterios, de onde ele realmente vem, o que fazia da vida, e ele humildemente se integra a essa vida simples. Paralelamente, seu irmão gêmeo morto narra a antiga vida de Asterios, a de teórico famoso, arrogante, inteligente, e o motivo de seu estado depressivo nas primeiras páginas: Hana, a mulher com quem foi casado, uma pessoa que é totalmente o seu oposto, e que obviamente não está mais com ele.

Sim, no fim Asterios Polyp é uma história de amor, mas algo que vai além de um romance qualquer. O foco não é, na verdade, Hana e seu relacionamento com Asterios, mas sim o que ela trouxe para a vida dele, e que faltas ela fez ao deixar de compartilhar seus dias com ele. Por mais que Asterios não percebesse os seus pequenos e irritantes atos – a necessidade de sempre afirmar sua superioridade intelectual, de encontrar utilidades para tudo e desprezar aquilo que é simplesmente um “enfeite”, um adorno –, o leitor vê isso claramente através dos desenhos de Mazzucchelli, das suas mudanças de traços e cores que separaram e aproximam o protagonista do que está à sua volta. O leitor percebe a iminente separação, e não só isso, mas a maneira com que ela vai afetar Asterios.

Pouco foi dito também sobre as outras personagens de Asterios Polyp: Hana, frágil e empenhada, eclipsada pela presença de Asterios, é a delicadeza e calma em pessoa. Ursula, a mulher do mecânico que lhe acolheu na nova vida, é quase que uma portadora da sabedoria sentimental, com suas vidências a adivinhações feitas apenas ao olhar para a expressão das pessoas – uma das personagens de que mais gostei. Todos têm sua simpatia que encantam o leitor para o que eles podem fazer por Asterios. Todas fazem parte da mudança que se constrói no arquiteto que, da vida solitária e demasiada auto-suficiente, percebe que existe muito mais além do claro e escuro, do útil e inútil, do vivo e do morto.

A cada nova olhada nas páginas de Asterios Polyp, minutos se passam por conta da capacidade de cada quadro prender a atenção para seus detalhes. A vontade, no fim, é voltar e reler tudo de novo no receio de ter deixado algo escapar, um detalhezinho que seja, mesmo que nem influa no entendimento geral do livro, mas só pela satisfação de reconhecer algo ali.