conexoes-malignasContos fantásticos que abordam temas recheados de seres sobrenaturais, como demônios e gárgulas, misturados com outros de ficção científica que se passam no espaço e em futuros distantes. É bom sair um pouco da realidade e seus dramas tão exaltados pela literatura contemporânea que conseguem, em sua maioria, representar bem esses aspectos surpreendentes que todos guardam. Não há problema em deixar isso tudo um pouco de lado e se embrenhar em fantasias mirabolantes, certo? Certo. E foi assim que li Conexões malignas, de Mário André Pacheco, mais um dos recentes lançamentos da editora Dublinense.

Na orelha escrita por Glee Bohanon (autora da trilogia Code word heaven, que desconheço), havia a promessa de contos inspirados no estilo de Isaac Asimov, autor que Pacheco admira, e também uma pitada de horror nos contos que trazem demônios como protagonistas ou o inferno como cenário. Motivador. O livro começa, então, justamente com um demônio, um coletor de almas que “burla” o sistema do inferno para corromper pessoas puras e trazê-las para o lado do mal. Com a ajuda de uma secretária bonitinha, ambos se fingem de humanos e sobem à Terra para mais um dia de trabalho, mas o receio de ser descoberto em suas trapaças toma conta da cabeça do demônio. E é já aí, no primeiro conto, que alguns problemas se apresentam.

O que incomodou minha leitura foi a insistência do autor em repetir informações – que, felizmente, não acontece tanto nos textos que seguem. Mas nesse particularmente, a constante reafirmação do fato das personagens estarem “camufladas” de seres humanos e as explicações excessivas do por que disso trancam a leitura. Além disso, senti falta do horror que a orelha prometia, pois o conto está muito mais voltado para um tom de humor, o que não chega a ser realmente um problema. O horror poderia aparecer mais à frente. Não foi nem no segundo conto, “Elevador do paradoxo infernal”, mas ele até chegou perto disso com a agonia de um homem preso em um elevador no inferno que nunca se move. Me animei novamente.

Os demônios seguem pelo livro, agora com a visita de uma entidade a um funcionário público oferecendo um pacto. Depois desse, a ficção científica toma conta: em “Otocracia”, o cenário me lembrou produções como Eu sou a lenda – cuja história só conheço pelo filme com Will Smith – traz um homem sozinho em uma cidade abandonada, um ambiente pós-apocalíptico que na verdade é apenas um capricho do protagonista que quis se isolar do mundo e suas tecnologias. Em seguida, o leitor conhece “Dr. Kaiko” através de seu diário contando seus dias de “trabalho” em um laboratório, e nesse conto esperei alguma surpresa. Porém, no final, a troca de voz do narrador – da primeira para a terceira pessoa – me desanimou, esperava ver o desfecho da natureza do protagonista ser revelada com mais criatividade por ele mesmo.

Há ainda mais histórias que pendem para a ficção ou para a fantasia demoníaca, mas não é necessário listá-las uma por uma. Mário André Pacheco usa uma escrita simples, sem volteios na narração e com bastante uso de diálogos, e isso deixou a impressão de simplicidade excessiva, tanto do texto quanto dos desfechos das tramas. Faltou o desafio da interpretação das histórias. Todos seguem à risca, no fim, o que está descrito na quarta capa do livro: uma sinopse simples de cada conto composta apenas por duas linhas. E assim como lá está dito, está no livro: simples e sem surpresa. A fantasia, dessa vez, se mostrou menos fantástica que a realidade.