de-tudo-fica-um-poucoAntes de falar diretamente do livro De tudo fica um pouco, quero comentar duas coisas, ou fazer duas reflexões, o que quer que isso signifique. Primeiro já falando do livro de certa forma, ele é fruto de uma oficina literária ministrada por Luiz Antonio de Assis Brasil, na PUC-RS. O professor é nome conhecido e acompanha muitos lançamentos de novos escritores da cena literária porto-alegrense, autores que passaram pela sua oficina de escrita criativa. Uns bons, outros nem tanto. Não sei exatamente o que pensar dessas oficinas, se elas são mais uma máquina de fazer escritores – contribuindo para a tal reclamação que corre por aí que possuímos mais autores do que leitores e por isso estamos em uma área já saturada cheia de “criação não criativa” –, um capricho de quem gosta de rabiscar algumas linhas para aperfeiçoar um pouco a linguagem ou uma ferramenta que realmente contribui para a formação do escritor. Minha opinião sobre isso é inexistente, no final das contas.

Outra coisa é relacionada à orelha do livro assinada pelo editor da Dublinense, Rodrigo Rosp, em que, além de apresentar o resultado da turma 41 da oficina literária, revela outra linha que agrupa todos esses contos neste livro: a inspiração. E é aí que o leitor descobre a origem do nome dessa coletânea: tudo o que vemos, ouvimos, comemos e consumismos deixa seu rastro. De tudo fica um pouco, e disso os alunos de Luiz Antonio de Assis Brasil tiraram a base para construir seus contos. Mas esse comentário é esquecido logo quando a leitura começa, pois nenhuma informação é dada ao leitor sobre essas fontes de inspiração. Isso aparece apenas nas últimas páginas, e aí se percebe a grande gama de referências que existe em seus contos: a própria literatura, a música, as artes em geral com suas pinturas, esculturas e composições.

Já está na hora de falar, então, do livro. Em De tudo fica um pouco, 16 autores apresentam dois contos cada em que exercitam a criação com base na referência que escolheram. E do contrário do que pensei enquanto lia esses contos, os autores não são necessariamente estreantes. Muitos já têm livros publicados, até prêmios, possuem experiência com a escrita e com esses contos buscam lapidar ainda mais a técnica da produção textual. E nisso o livro não falha. A forma e linguagem não deixam a desejar.

No que diz respeito às histórias, também não ficam atrás. Há enredos diversos que trazem temas como amor, morte, abandono, traição, insegurança. Dramas familiares, profissionais, existenciais, relacionamento entre amantes, amigos, enfim, questões que inquietam e, dessa insatisfação, se transformam em histórias interessantes. Dessas, uma das mais bonitas presentes no livro é de autoria de Renan Santos, o conto “Garoto do espaço”, em que ele narra a gradual aproximação de um garoto com o filho de sua madrasta, um menino mais novo e com certo atraso mental, relação que passa da vergonha ao amor genuíno entre irmãos – o texto é inspirado em uma música do Smashing Pumpkins.

Bárbara Zeni se destaca com “Babúcia reino”, uma história sobre um estudante de filosofia relaxado, ou melhor, um filósofo de botequim que grita aquele tipo de frases de impacto que percorrem as redes sociais e que possuem sua sabedoria momentânea. “O lugar que ela abandonou”, de Luisa Geisler, também chamou a atenção pela forma como mostra o receio de uma universitária pela mudança, a insegurança sobre o que se espera do futuro e se as escolhas serão, definitivamente, as certas.

O resultado final da produção da turma 41 de Luiz Antonio de Assis Brasil é satisfatória para o leitor. São contos de leitura agradável, nem todos com um enredo realmente interessante, muitos deixam a impressão de falta, como se fossem necessárias algumas páginas a mais para que as ideias ficassem claras e bem apresentadas ao leitor. Contudo, ao analisar a escrita, o que foi escolhido colocar no papel, os textos aparecem impecáveis. O cuidado na construção, releituras e revisões, fizeram dos contos em De tudo fica um pouco textos para revisitar.