cronica-de-um-vendedor-de-sangueO dinheiro conseguido com sangue é sagrado. Nos campos da China do final dos anos 1950, o homem que vendia seu sangue era visto como forte, saudável, um bom partido para as filhas dos camponeses. Isso porque possuía sangue em abundancia e bom o suficiente para receber por ele. Já nas cidades, o sangue é algo tão sagrado que vendê-lo é quase como dar a própria vida. O que aqui chamamos de ato solidário, doar para aqueles que necessitam, nessa China constitui um mercado negro em que as pessoas davam sua energia em troca de dinheiro – e precisavam, inclusive, levar mimos ao “Chefe de Sangue” para que ele aceitasse comprá-lo. E o que deveria ser feito esporadicamente vira um hábito que suga a vida das pessoas transformando-as em vítimas.

O mercado negro de sangue da China é o ponto de partida de Crônica de um vendedor de sangue, romance do escritor chinês Yu Hua, que mostra como gradualmente seu protagonista utiliza a sua “energia” para solucionar os problemas de sua família. Xu Sanguan – o nome faz parecer que é seu destino viver de sangue – é um funcionário de uma fábrica de seda de uma pequena cidade, casado com Xu Yulan, com quem teve três filhos: Yile, Erle e Sanle. A família vive tranquilamente até Xu Sanguan descobrir que seu primogênito é, na verdade, filho de outro homem. A rejeição do filho até então favorito é imediata, mas como seu verdadeiro pai não reconhece Yile, Xu Sanguan deve passar por cima dos próprios ideais para conviver com o primogênito e aceitar que, apesar de não terem o mesmo sangue, ser ainda assim seu pai.

Yu Hua escreve apostando nos vícios de linguagem, nas repetições de palavras, gestos, pensamentos e comportamentos. Sua narrativa é simples e necessita de pouco para abranger sentimentos e descobertas. É utilizando diálogos e narrando ações tal qual elas acontecem que Yu Hua dá personalidade às suas personagens. O tom do livro lembra as fábulas, que narram aquilo que importa para a história, saltando no tempo para abordar os momentos mais relevantes, ocultando aquilo que não contribui necessariamente para a trama. O artifício que Yu Hua utiliza para dizer muito com poucas palavras é eficiente e encantador pela simplicidade. Assim, o ritmo de leitura é rápido, sendo apreciado como se o leitor estivesse vendo e memorizando rapidamente uma sequência de imagens que formam a trama, só que com palavras, como se estivesse vendo os dramas de Xu Sanguan de dentro de sua própria casa.

As relações sociais da China no final de 1950 são bem exploradas pelo autor, pois são elas que levam o protagonista a tomar a drástica decisão de vender seu próprio sangue com frequência para garantir a sobrevivência da família. Yu Hua mostra o desafio de Xu Sanguan em lutar contra seus ideias para manter sua família unida na China comunista e sobreviver aos tempos de escassez e conflitos trazidos pela industrialização comandada por Mao Tse-Tung. Sua mulher e seus filhos sentem o peso dessas mudanças no cotidiano, no trabalho, na mesa, no convívio com seus vizinhos, e apesar das atitudes duras, Xu Sanguan demonstra bondade e solidariedade com seus familiares e até com suas desavenças. E isso, aos poucos, consome não apenas seus recursos financeiros, mas também sua própria vida.

Crônica de um vendedor de sangue é um livro que mostra toda a sensibilidade dos chineses diante da tragédia familiar e também social. É a história de apenas uma família, mas que resume o que toda a China enfrentou sob o comando de Mao Tse-Tung, que aceitou todas as suas mudanças com obediência inquestionável. O choque inicial da leitura que mostra uma cultura tão fechada e diferente da que conhecemos aos poucos se transforma em uma história encantadora de um personagem que dá tudo o que tem para manter vivos aqueles que ama.