enciclopedia-dos-quadrinhosUma coisa difícil de entender no mundo dos quadrinhos é como muita gente ainda os considera “coisa de criança”. Para mim, desde o começo, gibis, HQ’s, graphic novels, enfim, álbuns e tirinhas que num olhar superficial são destinados às crianças servem para qualquer idade. Se eu pegar agora um dos gibis da Turma da Mônica ou do Pato Donald que li quando pequena, vou me divertir tanto quanto naquela época. Assim como Peanuts é uma das minhas tiras favoritas desde a infância, e que parece trazer muito mais significados para os adultos que para as crianças com suas ironias e reflexões sobre a vida. O mesmo para Mafalda e muitas outras histórias que fizeram a infância de muita gente e ainda são admirados por eles, independente da idade.

Há muito por aí para provar o contrário, de que só porque é desenho, é infantil. Olhe só Maus, de Art Spiegelman. As HQ’s reportagem de Joe Sacco com sua cobertura de conflitos. Os próprios super-herois que cresceram junto com seu público e hoje são muito mais voltados para adultos que para crianças, como no seu início. Chega até a ser cansativo repetir que “quadrinho é coisa séria” porque isso é praticamente uma obviedade. É uma arte que já se espalhou tanto que precisa de uma, duas, muitas enciclopédias para reunir os principais nomes que fizeram e fazem história. É aí que nos deparamos com Enciclopédia dos quadrinhos, que surgiu primeiro em 1990 organizada por Goida, e agora volta em uma edição atualizada, revisada e ampliada com a participação de André Kleinert e publicada também pela L&PM.

Como os próprios autores explicam na introdução dessa enciclopédia, a intenção não foi reunir todos os nomes dos quadrinhos do mundo todo, mas sim os mais significativos – e com grande destaque para desenhistas, argumentistas e roteiristas nacionais. Ou seja, nem todos os nomes da área aparecerão nessa enciclopédia, tanto alguns novos que surgem por aí como outros mais conhecidos, até. Para isso, o número de páginas desse livro – que ultrapassa as 500 – deveria ser muito maior, sem falar em mais volumes. Só de ilustradores e autores de tirinhas na internet existe um número infindável no Brasil. Imagina só recolher essas informações do mundo todo.

Antes de dar início aos verbetes dos principais nomes dos quadrinhos mundiais e nacionais, Goida e Kleinert fazem o leitor percorrer uma breve história das HQ’s, relatando seu início lá no final do século XIX, despontando nos jornais norte-americanos – como meio de atrair mais leitores imigrantes –, passando pela era de ouro, período de guerra, censuras e moralismo que limitaram a produção e publicação de histórias em quadrinhos. Essa pequena contextualização dos quadrinhos na História e no mercado editorial mostra que, além de importantes para a formação de leitores que cresceram com as aventuras dos super-herois, foi também aos poucos ficando mais madura até virarem fetiche de adultos. O recente boom no próprio mercado brasileiro, com cada vez mais autores sendo publicados por editoras que antes não atuavam nesse segmento, também é comentado no livro.

Passando para os verbetes, Goida e Kleinert fazem um grande resumo da história dos quadrinhos e seus autores. Em cada verbete, eles relacionam as principais obras desses nomes, resumem as maiores e mais conhecidas publicações (incluindo edições brasileiras) e também fazem um pequeno relato biográfico de cada desenhista, roteirista, argumentista e até editores – nomes como Roberto Marinho, falecido dono da Globo, aparecem no livro como figuras importantes na publicação de HQ’s. O mais interessante é notar o grande número de autores brasileiros listados na obra, o que Goida confessou não ter dado tanta atenção na primeira edição da enciclopédia.

Os amantes dos quadrinhos encontram os nomes que fizeram história com as revistas de super-herois, as tiras diárias ou semanais em jornais, em revistas coletivas com as mais diversas abordagens e públicos e, claro, as graphic novels que hoje vivem um bom momento no mercado editorial. E se nomes como Roberto Marinho – que não desenhava nem escrevia – são listados, Walt Disney e Hanna e Barbera também merecem seu espaço – apesar de criadores de personagens como Mickey Mouse, Tom & Jerry e outros, nunca desenharam uma tira sequer.

Apesar do grande número de autores presentes na Enciclopédia dos quadrinhos, senti falta de mais nomes dos famosos mangás, as HQ’s japonesas. Claro que os principais estão aqui, como os roteiristas e desenhistas de Lobo solitário, Dragon Ball e Akira. Mas alguns nomes que fazem sucesso entre um público mais jovem – alguém falou nas meninas da CLAMP? – fazem falta.

Para adoradores das HQ’s, a Enciclopédia dos quadrinhos é mais que um grande presente. Com o melhor e mais cultuado da “nona arte”, Goida e Kleinert fizeram um bom trabalho em reunir as principais referências da arte sequencial. Sem falar que é um exemplar que reúne o que foi produzido de maior e melhor, tanto no mundo como no Brasil, o que já serve como um guia de leitura infalível para quem quer se aprofundar ainda mais no que as HQ’s têm a oferecer.