peregrina-de-araqueO nome, a capa, o subtítulo: tudo indicava que Peregrina de araque: uma jornada de fé e ataque de nervos no Oriente Médio é um daqueles tipos de livros no melhor estilo YA Books, só que nacional. Lembra aquelas histórias de mulheres decididas que embarcam em alguma viagem maluca para esquecer um desapontamento afetivo ou profissional e, no melhor estilo Sessão da Tarde, aprontam altas confusões. Depois de muitas situações absurdas e engraçadas, terminam em um momento de epifania, autoconhecimento ou qualquer outra coisa que “levante o astral”. O diário de viagem da jornalista gaúcha Mariana Kalil, publicado pela editora Dublinense, pode até ter muito disso. Contudo, ele não tem a pretensão de trazer importantes ensinamentos sobre a vida através de um romance água com açúcar. Mariana só quer mesmo contar como foi sua viagem, assim, de forma bem despretensiosa.

Não, a autora não passou por nenhuma decepção amorosa ou algo do gênero para partir para o Oriente Médio. Jornalista da Zero Hora, foi a convite do jornal que ela topou partir para o Egito, Jordânia e Israel com mais 35 pessoas para fazer uma peregrinação religiosa em 15 dias. Sem procurar paz, conhecimento, Deus, revelações sobre a vida ou outras questões que inquietam as pessoas. Era para ela simplesmente ir e relatar sua viagem na companhia dos peregrinos. Puro trabalho. Mas o Oriente Médio, com todas as suas peculiaridades – a cultura, os conflitos, etc. – não podia deixar de marcar Mariana, e os e-mails diários enviados para a família em Porto Alegre como desabafo da estranha viagem se transformaram no livro Peregrina de araque.

Durante a leitura, uma das coisas que pensei em comentar sobre o livro é a visão um tanta ingênua e preconceituosa da jornalista para o que via logo na primeira etapa da viagem, em passagem pelo Cairo. A pobreza e sujeira da cidade surpreenderam negativamente Mariana que, em certo momento, se pergunta: onde estão os ricos? Aqui não tem nenhuma Padre Chagas? Uma Zara? O que pensei na hora foi “se você queria ir numa Padre Chagas, poderia ter continuado em Porto Alegre”. Mas lembrei da minha própria reação ao começar a ler o livro, de julgá-lo logo de cara como uma leitura não tão interessante, e deixei de lado essa reclamação – todos têm seus defeitos perdoáveis. De forma descontraída e objetiva, Mariana segue no relato de suas visitas a mosteiros, conventos, pontos sagrados, refazendo o caminho da santa família ao lado daqueles 35 peregrinos, idosos em sua maioria.

Tanto quanto as visitas a pontos turísticos da região, a própria relação dela – uma religiosa, mas não praticante – com os devotos liderados por um frei e um padre, que a caminho das visitas rezavam missas, cantavam os cantos e orientavam os peregrinos com detalhes históricos – e religiosos – sobre tudo o que viam. E no meio disso está Mariana, contando sem medo ou vergonha tudo o que via – o comportamento de seus colegas de viagem, o chilique em cima de um camelo, o calor insuportável e a irritação em ter que servir de tradutora para pessoas que achavam um absurdo a população do Oriente Médio não falar português. Tudo de um jeito bem humorado, claro. O texto de Mariana, por mais rabugentas que sejam algumas de suas reclamações, esbanja simpatia.

Claro que em um livro sobre peregrinação religiosa não poderia deixar de ter um pouco do citado autoconhecimento. Passar pelos lugares onde, segundo a Bíblia, Jesus passou não deixa de despertar certa emoção na autora, que transborda nos momentos mais inoportunos e a leva a se aconselhar também com os padres que lideram a turma de turistas. E, por mais incrível que pareça para um leitor pouco ligado em religião, é nesses momentos que o livro é melhor. Principalmente quando os próprios padres desfazem alguns mitos da Bíblia – a partilha dos pães, a anunciação da gravidez de Maria e a ressurreição de Lázaro – com interpretações mais lógicas e muito mais tocantes. Interpretações que, contrariando qualquer resquício de inteligência, os peregrinos negaram veementemente, preferindo a fantasia da leitura literal do livro sagrado. Como o próprio padre comenta com Mariana: “O problema é que a maioria prefere acreditar em milagres e poucos colocam a teoria em prática”. A teoria, nesse caso, é levar para a vida os bons exemplos de solidariedade e compaixão com o próximo, e não se preocupar apenas com seus próprios pecados.

Peregrina de araque é um livro divertido, não existe pretensão de ser obra literária e nem foi com esse objetivo que ele nasceu. É apenas um registro de um momento na vida da autora que, sim, é interessante o bastante para ser compartilhado com quem se dispuser a ler. E a leitura, com a simpatia de Mariana Kalil, garante bons momentos de descontração.