shantaramEm 1978, Gregory David Roberts foi preso por assalto à mão armada na Austrália. Ao se divorciar, o até então escritor se rendeu completamente à heroína, perdeu o contato com sua filha, sua família, e passou a roubar para alimentar seu vício. Capturado, ele foi condenado a passar 19 anos trancafiado dentro de uma prisão de segurança máxima. Contudo, o horror das torturas sofridas dentro da cadeia e o desejo incontrolável pela liberdade levaram Roberts a um ato extremo: fugir. E em 1980, livre da prisão e um dos mais procurados foragidos da Austrália, ele desembarca em Bombaim, a cidade mais populosa do mundo. Muito mais do que uma chance de se esconder, se redimir de seus erros e começar uma nova vida, Gregory David Roberts encontrou na cidade a acolhida que nunca teve em nenhum outro lugar, e se sentiu em casa em meio ao caos da cidade indiana marcada pela pobreza, desigualdade e crimes.

Em Shantaram, a vida do autor serve de base para esse romance que transita entre as camadas mais pobres de Bombaim até o luxo de Bollywood, entre a paz e solidariedade dos moradores de uma favela clandestina até a guerra no Afeganistão e a briga entre as gangues mafiosas da capital de Maharashtra. E entre o amor pela cidade, sua cultura e seu povo e o ódio e medo despertado quando sua liberdade fica novamente ameaçada. Recheado de personagens marcantes, o livro de mais de 900 páginas publicado pela editora Intrínseca aqui no Brasil revela a força desse protagonista para se reerguer nos momentos mais difíceis e encontrar lógica e bondade em meio à violência e a impunidade de Bombaim.

Shantaram conta a história de perseverança de Lin – nome falso do protagonista para não ser reconhecido pelas autoridades do país. Roberts teve que escrever o livro por três vezes, pois os dois primeiros manuscritos foram destruídos pelos policiais ao ser preso novamente, 10 anos após a fuga, na Alemanha. Não bastou ter passado por experiências extremas tanto física quanto psicologicamente. Roberts tinha que compartilhá-las e retirar delas lições para a vida toda. Sem muita explicação, ele já mergulha o leitor na vida de Bombaim dando início à história de Lin a partir do momento em que ele chega à cidade, vindo da Nova Zelândia. A empatia com Bombaim é imediata: a visão das favelas construídas com materiais precários, um amontoado de gente vivendo aglomerada em meio à sujeira, não foi chocante o bastante para deixá-lo apreensivo quanto a escolha desse destino. Aos poucos, mais e mais características marcantes e assustadoras surgem na rotina de Lin, acompanhado por um guia local, Prabaker, com quem deu início a uma grande amizade logo no primeiro contato. Linchamentos, sujeira, tráfico de drogas, tudo o que é corrupto e ilegal não diminui em Lin o sentimento de familiaridade com a cultura, o povo e a filosofia indianos. Narrando em primeira pessoa, conforme Lin se envolve mais ainda com a cidade e a absorve, o leitor também a aceita em suas particularidades e estranhezas, e vai também descobrindo um pouco mais do passado do protagonista.

Situações bizarras e hilárias passam, então, a parecerem normais aos olhos do leitor – como quando os moradores da favela onde Lin mora comentam a sua atividade intestinal baseados nas observações que faziam enquanto ele cuidava de suas necessidades ao ar livre. Essa falta de privacidade até então assustadora torna-se normal. Os costumes de Bombaim aos poucos são reconhecidos e apreciados, e por mais suja e desorganizada que a cidade parece ser – e é –, Roberts consegue passar para o livro de forma compreensiva as estranhas leis que regem o cotidiano dos indianos, muitas vezes estabelecidas por uma própria comunidade ou pelo crime organizado, e não pelo governo ou outra instituição legal. O respeito, a alegria, a solidariedade e o instinto de sobrevivência com um senso de justiça único é o que mantém Bombaim de pé, funcionando em meio ao caos.

De morador de favela a seguidor preferido do maior líder da máfia de Bombaim – atuando no mercado negro de câmbio, passaportes falsos e contrabando de ouro –, Lin passa pelas situações mais divergentes. Montou um posto de saúde na favela e auxiliou muitos de seus moradores, trouxe ideias inovadoras para os membros da máfia, se envolveu com diretores de cinema, assassinos, prostitutas e pessoas da mais humilde classe sempre com a mesma dedicação e paixão, pois como ele mesmo define: “A Índia é o coração. É o coração que nos une.” Não importa religião, profissão, nacionalidade ou classe, Lin se sente conectado com todos através de seu coração e retribui cada ajuda que recebe.

Entre as passagens mais interessantes de Shantaram estão as conversas entre Lin e Abdul Khader Khan, o líder da máfia de Bombaim. Suas discussões tratavam de, principalmente, questões sobre o bem e o mal, uma reflexão constante de como conviver com suas atividades ilegais e como enxergar nelas a bondade, algo que contribui para a evolução da vida. E o protagonista não aceita sem discutir as ideias de seu chefe, mas curioso ou irritado, tentava encurralar Khaderbai em seus próprios argumentos, dando ao leitor material o bastante para concordar ou não com esses conceitos apresentados pelo líder. O livro pode parecer demasiado sentimental para muitos leitores em alguns momentos, com recorrentes descrições “bregas” – como descrever olhos de Karla, sua grande paixão, como “do verde das lagunas, onde a água rasa descansa sobre areia dourada” –, mas assim como as famosas novelas mexicanas são famosas pelo seu drama exagerado, a demonstração de afeto ou ódio é acentuada pela maneira sentimental dos indianos se expressarem, e dentro desse contexto elas acabam fazendo todo o sentido.

Se em Bombaim: cidade máxima, do jornalista Suketu Mehta – livro que até então mais me aproximou desse país –, os problemas da Índia e seu modo de viver são narrados à exaustão pelo autor, em Shantaram o foco está no povo que faz de Bombaim ser o que ela é: um lugar mergulhado em violência e injustiça, mas ainda assim amoroso, acolhedor e alegre, características fortes que se sustentam por mais que a destruição assole as vidas presentes nesse livro. É impossível não se apaixonar pelas personagens e pela cidade que adotou Lin e que Gregory David Roberts colocou nesse livro. E 900 páginas não são o bastante para dar conta de toda a história que o autor ainda tem para contar, já podemos esperar pela continuação que dará seguimento à vida tumultuada vida de Lin.