r.izze.nhas

Resenhas e aleatoriedades literárias.

Menu Close

A visita cruel do tempo, de Jennifer Egan

a-visita-cruel-do-tempoA tarefa de escrever um livro que ilustre a passagem do tempo para uma geração através do ponto de vista de diversas pessoas parece ser difícil de concretizar. Contudo, livros com esse tipo de abordagem, que buscam a pluralidade de vozes para compreender toda uma história, não são necessariamente uma novidade. Maior exemplo disso está em Os detetives selvagens, de Roberto Bolaño, que usa o relato de inúmeras personagens que, ao contarem suas próprias histórias, revelam os passos de seus protagonistas. É mais ou menos isso o que Jennifer Egan faz em A visita cruel do tempo, livro que lhe rendeu o Pulitzer de ficção no ano passado e publicado aqui no Brasil pela editora Intrínseca. Mas diferente da obra do autor chileno, o livro de Egan não trabalha com protagonistas, embora possa usar a interpretação para apontar a passagem de tempo como a principal personagem desse enredo.

Pulando de personagem para personagem, cruzando os anos, montando uma rede de pessoas e se concentrando na vida de cada uma delas para construir uma história sobre as gerações, Egan faz do livro uma verdadeira experiência literária. Cada capítulo compreende um momento dentro do intervalo de 50 anos em que apresenta ao leitor as mais diversas personagens, todas diferentes e com histórias que se interligam através dos anos, que complementam uma a outra. Como se cada capítulo fosse, na verdade, um conto, mas tão relacionados entre si que é impossível limitar a leitura a um texto só, de forma isolada. Eles revelam mais sobre aquilo que já foi lido, ou guardam detalhes que serão cruciais para a história seguinte. Dessa forma Jennifer conduz o leitor a descobrir e recolher esses pequenos detalhes para transformar esse retalho de histórias em uma coisa só.

Jennifer Egan começa com Sasha, ex-assistente de um famoso produtor musical de Nova York, que revela ao seu terapeuta suas últimas experiências cleptomaníacas no que seria o tempo presente – com menção, inclusive, ao 11 de setembro. Já na primeira página Egan chama atenção pela forma que narra o estado incontrolável da personagem frente a possibilidade de um novo roubo, descrevendo sem rodeios o que ela sente durante seu ato transgressor e sua justificativa para fazê-lo: “Nós moramos em uma cidade onde as pessoas são capazes de roubar os cabelos da sua cabeça se tiverem a mínima chance, mas mesmo assim você deixa seus pertences totalmente à vista e conta com que estejam à sua espera quando você voltar?”, dirige a pergunta a sua vítima apenas na imaginação. A partir daí, a autora passa a se concentrar nas outras personagens com igual cuidado, e apresenta Bennie (o produtor), Rhea (sua amiga na adolescência), Lou (seu mentor), Jules (seu cunhado), Dolly (ex-chefe de sua ex-mulher)… É uma rede imensa de personagens que chega até a confundir, mas Egan mantém esses laços na memória para que o leitor descubra novos detalhes sobre a vida de cada um.

Assim como muda de personagens, foco e tempo, a autora altera a própria forma de narrar a cada capítulo. Há textos na 1ª e 3ª pessoa no estilo indireto livre, o que aproxima ainda mais o leitor do que as personagens vivenciam, e ela ainda se permite contar uma das histórias na 2ª pessoa, algo difícil de fazer e que nas suas mãos foi muito bem usado. O livro parece, então, uma experiência da autora tanto para desenvolver suas tramas quanto testar diversas formas de narrá-las. O destaque está no capítulo elaborado como uma apresentação de slides, um dos mais interessantes do livro e que mostra o talento de Egan para inovar a escrita, fazendo através dessa estrutura uma previsão para um possível futuro do próprio texto. Alison, filha de 12 anos de Sasha, relata seus dias em um diário digital, utilizando setas, quadros e gráficos para contar a história de sua família. O que parece ser uma forma superficial de narrar – como já estamos cansados de ver nas apresentações em slides em aulas e palestras – se mostra uma maneira perfeita de englobar toda a rotina daquela família e seus conflitos, e com essa forma tão impessoal de passar informação, compreendemos todo o sentimento que envolve Alison. É claro que, sem ter conhecimento dos momentos anteriores em que Sasha apareceu no livro, o impacto desse capítulo não teria sido tão forte. É preciso ter uma base e conhecer o passado da personagem para notar essa grande mudança que sua filha apresenta em seus slides.

É tarefa do leitor adivinhar em que tempo cada capítulo se passa. Idades ou datas, por exemplo, praticamente não são citadas, e cabe a ele organizar e se orientar no espaço e no tempo através dos fatos que Egan joga no texto: em que momento estão trabalhando com quem, se relacionando com quem, se isso aconteceu antes ou depois daquele outro fato já narrado. Assim, percebemos o tempo passando dentro da história. Tempo, aliás, que não perdoa nenhuma personagem. Independente de viverem bem ou mal, Egan mostra como a passagem dos anos afeta de forma irremediável essas pessoas, as transformam e conduzem a um fim totalmente diferente daquilo que eram no início.

Imagine como seria ler toda a sua vida e a daqueles que você conhece com grandes pausas no tempo. O quanto que, de um ponto a outro, sua vida pode se transformar de forma inacreditável. Como que uma jovem perdida na Europa, anos depois, se torna uma mãe atenciosa? Muita coisa muda de um ponto a outro, e são mudanças tão grandes que você nem consegue reconstruir exatamente a forma como elas se deram. Isso é o tempo, é como ele age. E A visita cruel do tempo mostra esse tipo de ação. Como que, por mais que dizemos com convicção o que vamos fazer e o que vamos ser no futuro, o tempo é capaz de mudar nossos planos e mudar a nós mesmos, de uma forma ou de outra, assim como Egan fez com suas personagens e com o próprio mundo, prevendo um futuro repleto de mensagens de texto e palavras abreviadas, mais artificial. A visita cruel do tempo deixa um gosto angustiante: o tempo não perdoa, ele vai passar para você querendo ou não, não há como retardá-lo ou recuperar algo que ficou há muito para trás.