diario-da-quedaEm que momento da vida paramos para reavaliar aquilo pelo que passamos? O que desencadeia essa autorreflexão sobre o que fizemos em vida e o que causamos a outras pessoas, como tratamos aqueles com quem convivemos? Qualquer um deve passar por um desses momentos, por algo decisivo que desencadeia a reflexão e nos leva repensar tudo o que sabemos sobre a vida refletindo sobre o passado, para, assim, criar a base de um futuro. Em Diário da queda, romance de Michel Laub lançado pela Companhia das Letras no ano passado, é uma notícia a dar ao seu pai que leva o protagonista-narrador a escrever sobre os pontos de virada na sua vida, na de seu pai e de seu avô.

Para o narrador, esse primeiro momento ocorre na adolescência. A história começa na Porto Alegre dos anos 1980, e acontece em um aniversário de 13 anos de um colega que, diferente dele e de seus outros amigos da escola, não é judeu. João é um gói que, para se sentir um pouco mais próximo de seus colegas, ganha um falso Bar Mitzvah do pai. No momento em que o narrador e seus amigos devem levantar o aniversariante por 13 vezes, na última deixam-no cair propositalmente, um daqueles atos infantis e cruéis que terminam em remorso e culpa. A tal queda custa a João meses de recuperação e fisioterapia, e ao narrador a sua consciência.

O fato de ele e seus colegas terem achado legal praticarem tal ato com João é inexplicável, pois como descendentes daqueles judeus que sofreram com a perseguição de Hitler poderiam ser capazes de tratar um colega de forma tão cruel só por não fazer parte de tal cultura? O remorso do protagonista o leva a começar uma grande amizade com a vítima dessa queda, e nesse momento ele praticamente nega a sua origem, a religião e seus antigos colegas. E aí segue esse ponto de virada na vida dele: em uma discussão com o pai, descobre que seu avô, que nunca conheceu, esteve em Auschwitz. E que esse foi um momento tão doloroso em sua vida que ele procurou de todas as formas apagá-lo, como seu pai descobre depois de sua morte. O avô escreveu durante os últimos anos de vida uma espécie de enciclopédia utópica, em que apaga toda e qualquer menção à Auschwitz, à guerra, às fugas, dores, doenças e incomodações que ele teve em vida.

Para o pai do narrador, esse é o momento em que ele se sente mais próximo daquele que o criou, percebendo na ausência desses relatos de sobrevivente toda a dor que esse momento da História causou a ele, mantendo viva a memória dos campos de concentração para que todos os judeus se lembrem do mal que sofreram – citando sempre Primo Levi e seu livro É isto um homem?, em que o escritor relatou sua passagem por Auschwitz, lendo através dele tudo aquilo que o pai escondeu. Mais uma história sobre campos de concentração? Mais um livro sobre suas marcas? De um lado sim, mas Diário da queda vai além disso.

Laub fala de um ciclo. Um ciclo familiar marcado pela História, por lembranças, memórias que não marcam só uma, duas pessoas, uma família, mas também uma cultura inteira, o mundo. Esse ciclo se fecha, claro, no final do livro, mas as pistas estão aí desde o início: eventos decisivos da vida de seu avô, seu pai e dele mesmo. Eventos que se incrustaram na memória, perturbantes, carregados por eles por toda a vida. Que possuem um impacto cultural, mas são vistos também individualmente, registrados em papel para que não se percam. Os cadernos do avô, a queda de João e a briga com o pai foram momentos em que essas marcas foram relembradas, e é o que Michel Laub apresenta ao leitor por todo o livro.

Narrado em grande parte através de verbetes, o autor explora o relacionamento do narrador com o seu passado familiar. Não há ordem, não há lógica aparente que organize esses verbetes, eles surgem como se fossem o seu fluxo de pensamento, indo e vindo no tempo, recortando e colando momentos. Repete-os à exaustão, copia e cola trechos do que seu pai escreveu, do que o avô inventou, como aquilo que se agarra à memória e sempre retorna. Como se não houvesse edição. O livro é um monólogo, um diário desencadeado por velhas memórias, que traz o passado de volta à luz e expõe seus traumas não pela nostalgia, dor ou agonia, mas pelo futuro. Para que as próximas gerações conheçam sua história e a entenda, perceba a importância desse passado doloroso.

Diário da queda foi considerado por muitos leitores um dos melhores livros publicados no ano passado, e sou obrigada a concordar. Em poucos romances o leitor pode se sentir tão íntimo e próximo de uma história como acontece aqui, por mais que a realidade que ele viva seja tão diferente dessa apresentada por Laub. O autor coloca muito bem nas páginas toda a carga emocional das suas personagens e, melhor ainda, faz isso passar para o leitor, que compreende parte da dimensão daquilo que chocou o mundo e ainda rende assunto para mais outras histórias.