Quando fui ao lançamento do livro A página assombrada por fantasmas, na metade do ano passado, já estava pensando em não resenhar seus contos. Seguindo uma regra do próprio Antônio Xerxenesky publicada no blog do Michel Laub: não resenhar livro de amigos. Não que sejamos lá muito amigos, mas conhecidos sim, com certeza, e levando minha apreensão de saber que um autor leu uma resenha minha em conta, preferi ficar no silêncio mesmo quanto a qualquer crítica. Apenas ler, dizer que gostei – quase com a certeza que iria gostar – e nada além disso. Pois bem, demorei mais de seis meses para ler o livro. Mesmo com o “polvo leitor” tão elegante desenhado na folha de rosto, fui adiando a leitura até que, em uma viagem para Santa Catarina, dentro do ônibus, resolvi finalmente encarar esses contos. E que arrependimento foi essa demora.
Vamos começar falando de literatura. A página assombrada por fantasmas é um livro que fala sobre essa arte. Mas sem pedantismo, daquela maneira que coloca a leitura no mais alto patamar das atividades que um ser humano pode querer usufruir – e Shakespeare o autor mais nobre que poderemos ler. A literatura é abordada, até, de maneira mais cômica, como uma forma de brincar com nossos autores e obras mais estimados. Tchau glamour das letras, olá personagens meio perturbadas, meio engraçadas, às voltas com os livros. Como o leitor/fã nervoso ao ir entrevistar seu autor favorito na capital da Argentina, imaginando diferentes situações – e recusas do entrevistado – antes mesmo de botar os pés nos corredores de seu apartamento. E também Charles Makuviac, “Brasileiro, apesar do nome. Um escritor contemporâneo de grande repercussão mundial, apesar de brasileiro”, frente a uma síntese de sua obra que marca seu futuro na literatura.
Um dos melhores, o conto “Algum lugar no tempo”, me era familiar: resgata o que o autor contou a uma turma de Jornalismo Cultural da Unisinos, em que fui monitora, num exercício de coletiva de imprensa planejado pelos professores. Mas lá, nessa falsa coletiva, a história não era uma ficção, e sim um relato de uma infância em que ele e seus irmãos se entretinham programando em um velho computador. Já na ficção, a brincadeira acontece em um momento em que estão ilhados em uma casa na praia, entediados pela impossibilidade de sair para o mar por conta da chuva, inventando no computador um jogo que segue o esquema de “livro jogo” que o narrador antes lia. O conto, apesar de se passar em um tempo onde eu mal deveria dar meus primeiros passos, trouxe aquele ar familiar de brincadeira que compartilhava com meus primos, embora fossem diferentes e em um lugar distante do litoral gaúcho. Mas nele há a mesma inocência, a curiosidade, aquele aconchego da convivência familiar em que o futuro era algo impensável – e olha só onde chegamos hoje, olha como é bom relembrar essa época.
A literatura, como havia dito, está presente em cada conto, logo há muitas outras referências para encontrar. Temos Borges, o fantasma que assombra as ruas de Buenos Aires e que, apesar de nele o autor ser odiado pela protagonista, despertou aquela vontade de (1) ler mais do argentino e (2) ir para a capital dos nossos hermanos. Há Thomas Pynchon em “Esse maldito sotaque russo”, ou melhor, há um impostor se fazendo passar pelo escritor e lançando livros utilizando seu santo nome – quando chegar a tradução de Against the Day certamente vou ler lembrando desse texto. Há Cervantes, quer dizer, há a tentativa de alterar a grande obra de Cervantes para fazê-la adequar-se à ideologia de um governo – esse conto, aliás, veja que estranha eu sou, li primeiro a sua tradução para o inglês! E eu mal sei ler em inglês! E tem Alan Pauls e uma personagem obsessiva e assustadora que saiu das páginas de seu romance e foi perseguir um homem pelas ruas de Buenos Aires em “A morta-viva”. Aqui tem bastante coisa, mesmo sendo um livro tão pequeno e os contos assim, tão curtos.
Me chamem de puxa-saco como fizeram com a Anica quando ela publicou a resenha de A página assombrada por fantasmas logo quando o livro foi lançado – podem chamar, não me importo, embora discorde. Gostei mesmo. Se o livro fosse ruim eu estaria falando dele aqui? Provavelmente não. Deixaria a crítica em um terreno mais particular. Creio. Se eu não pensava em fazer isso considerando o livro bom e agora estou fazendo justamente o que disse que não faria, não tenho como ter certeza. Mas acredito que vir aqui e indicar essa leitura é um jeito muito melhor de atestar que sim, o livro é ótimo. Vai ser uma delícia de ler caso você seja tão apaixonado, e ao mesmo tempo desapegado à literatura, de certa forma, como eu. Então, oi, Tony, curti teu Gasparzinho literário. Ele é camarada mesmo, leiam.


Oi, Taize!
Não conhecia esse livro. O nome me atrai bastante e a capa também. E lendo sua resenha pude concluir que é uma leitura que eu apreciaria. Gosto bastante de contos, não leio tanto quanto gostaria, mas é uma leitura que me agrada. Ah, acredito que o livro tenha te agradado. Petulância — acho eu — alguém dizer que só fez uma crítica positiva porque conhecia o autor… Bobagem. Que bom que curtiu a leitura. Tomara que eu possa conferir, um dia, de perto estes contos.
Beijos,
^^
Oi, Amanda!
Adoro a capa desse livro, bem comentado heheheh
Então da próxima vez que tu for ler contos, lê esse livro! Se tu curte muito literatura e tudo o mais, certo que tu vai gostar. =)