Resenhas

Wilson, de Daniel Clowes

WILSON_FC_COLORSAquela piadinha que a gente tanto ama/odeia do “só que ao contrário” desabou na graphic novel de Daniel Clowes em forma de sinopse – o que não deve ter sido intencional. “Wilson é um adorável malandro. Um pai e marido dedicado. Uma flor delicada.” Só que ao contrário. Wilson é mais irritante do que você pode pensar. Você está lá, quieto no seu canto tomando um capuccino delicioso e do nada um cara de óculos à lá Woody Allen senta na tua frente – sendo que todas as outras mesas estão vazias – e começa a puxar uma conversa sem sentido. E ainda se acha no direito de te ofender. Wilson é o cara que, sem ter nada para fazer, manda uma caixa cheia de merda de cachorro para sua ex-cunhada. Um troll da vida real. Ou melhor, dos quadrinhos.

Em Wilson, Clowes, conhecido pela HQ Ghost World, cria um personagem amargurado, idiota, intratável, inconveniente, e por isso tudo bom. Ele é ótimo. São 80 páginas, cada uma é uma tirinha que pode muito bem ser lida separadamente, mas que juntas formam toda uma história da vida de merda que Wilson tem. Resumindo bem: ele é um norte-americano de 43 anos, solitário, só gosta de sua cadelinha, não faz nada da vida e descobre que o pai está morrendo. Pronto, esses são os ingredientes para o livro mostrar as tentativas pífias do personagem em encontrar algum sentido para sua estada no mundo e tentar arrumar aquilo que, claro, estragou no passado, em busca da fuga da solidão em que sempre viveu.

Na verdade, Wilson parece ser ainda um rascunho. Em uma entrevista, Clowes fala que nem fazia ideia do que ele seria: uma graphic novel mesmo ou um livro de tirinhas. Também não tinha noção do traço a dar ao personagem, e isso explica o fato da HQ apresentar tanta variação nos desenhos, nas formas e cores que mudam a cada página – do estilo cartoon ao mais realista. E ele ficou assim desajeitado, fragmentado, um verdadeiro Frankenstein dos quadrinhos. Mas isso não é problema algum, e sim um mérito. Wilson tem um ritmo tão leve de leitura que é fácil imaginar o que acontece com o protagonista nos pequenos intervalos entre uma tirinha e outra – podem representar tanto um curto período de tempo quanto um salto de anos. Logo de início o leitor percebe que há todo um problema se formando na vida do protagonista.

Se Wilson é intragável como pessoa, por que ele é bom? Bem, porque ele apresenta situações hilárias. Não é humor negro ou escrachado, é uma espécie de melancolia e impaciência apresentadas de uma forma que te faz rir de tão absurdas que são as situações que ele cria – e tristes também. Como abordar um estranho do nada e despejar filosofias sobre a vida para acabar o chamando de merda, sentar e olhar para o mar procurando passar por uma epifania e em 30 segundos se irritar com o ridículo da situação. Quem não quer poder encarar alguém com a maior seriedade do mundo e poder dizer com todas as letras: “Cuzão”? Wilson faz isso, e você inveja muito ele nessa hora.

Contudo, a inveja não ultrapassa essa liberdade que ele dá a si mesmo de mandar as convenções sociais para o inferno. Isso tudo é um mecanismo para manter qualquer pessoa afastada, e Wilson continua sendo um homem deprimente, que quanto mais tenta corrigir seus erros do passado – se aproximar da ex-mulher e encontrar sua filha –, mais mostra que seu talento para ser social é nulo. Daniel Clowes decide dar uma segunda chance a Wilson, no fim ele descobre algo, não se sabe o que, e é como se ele finalmente tivesse se encaixado em algum lugar, o que leva embora a pena que o leitor vai nutrindo por ele ao longo do livro.

Leiam Wilson. É rápido, é bom, dá até para ler mais de uma vez no mesmo dia, se puder. E vale mesmo ler mais de uma vez, tirar ele da estante, abrir numa página qualquer e ver com que insulto ou momento filosófico sobre a vida Wilson irá nos receber. Só para atirar sua motivação no asfalto para ser atropelada por um ônibus cheio de gente rabugenta e você rir disso.

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