capa_cartier_bresson.inddUm dos primeiros nomes que ouvi quando comecei meu curso de Jornalismo foi o de Henri Cartier-Bresson, na aula de Fotografia. A excelência geométrica de suas fotos em preto e branco foi projetada na parede da sala pelo professor, enquanto apresentava a esses projetos de jornalistas que éramos as mais famosas imagens de um dos maiores fotógrafos do século XX. Para aquele grupo de alunos recém-saídos da adolescência, Cartier-Bresson poderia parecer apenas mais um nome “clássico” evocado pelo professor que logo seria esquecido. Mas para os que já estavam se apaixonando pela fotografia, HCB permaneceu como o grande mestre do registro fotográfico. Foi o homem que revolucionou o fotojornalismo, mesmo não ambicionando atuar nessa área.

Em Cartier-Bresson: O olhar do século, Pierre Assouline disseca toda a vida do artista-que-se-tornou-fotógrafo com rigor cronológico. Todo o legado que HCB deixou para a fotografia está presente nas 400 páginas recentemente publicadas pela L&PM em edição de bolso. O autor, amigo do fotógrafo, utiliza tudo o que recolheu em cinco anos de conversa com a lenda das lentes – falecido em 2004 –, seus arquivos, entrevistas e publicações que se debruçaram sobre a vida de personagem tão controverso. Controverso por não ver o seu próprio trabalho como arte (a maior pretensão profissional do francês foi, desde o início, ser pintor), enquanto seus colegas, jornalistas e editores o colocavam no pedestal de gênio, aquele que trouxe para o simples registro do factual a poesia. Por impregnar suas fotos com alma e sentimento, não apenas com informações.

Henri Cartier-Bresson nasceu em 1908, vindo de uma família conhecida na França pela fortuna conquistada em sua fábrica de fios. Fortuna essa que Henri, desde criança, se perguntou de onde vinha, desconfortável com todas as facilidades que sua família usufruíra por conta do dinheiro, evitando ser relacionado à tradicional casa em que cresceu. Não seguiu o futuro previsto por seus pais – se preparar para tocar os negócios da família –, mas nem por isso deixou de ser apoiado em seu sonho artístico. Primeiro, estudou arte e pintura na academia Lhote, depois, ao se encontrar com a fotografia, a adotou. De posse de sua inseparável Leica com uma lente 55mm, HCB passou a fotografar aquilo que o interessava no mundo. Sem se prender a temas, fatos ou empresas, se recusava a fazer foto reportagens. Mas foi justamente no jornalismo que seu nome se consagrou.

Na biografia, Assouline faz um relato fiel do que o fotógrafo viveu da infância à velhice, se concentrando nas personagens que encontrou e fazendo iguais descrições delas e de suas relações com Cartier-Bresson. Nenhum momento escapa de seu registro biográfico: a decisão de se dedicar à fotografia, as várias vezes em que desistiu de sua “profissão” para enveredar pelo documentário em vídeo e voltar à pintura, até o retorno ao registro fotográfico durante a Segunda Guerra Mundial, os três anos de prisioneiro de guerra e sua fuga que lhe marcaram de forma irreversível. Tudo que envolve a vida, a arte e o trabalho de Cartier-Bresson está nesse livro.

A leitura, contudo, se compromete com tanto rigor na documentação. Em vários momentos, ultrapassar os parágrafos descritivos de Assouline se torna uma tarefa difícil, e o leitor se distancia da personagem sobre a qual resolveu conhecer a fundo. Onde está o fotógrafo genial do qual tanto ouvimos falar? Onde estão as histórias de suas mais famosas fotos? Essa parte da biografia demora a chegar, mas quando aparece, aí sim o leitor se depara com os bastidores de seus registros mais célebres. Depois da fundação da Magnum – uma das maiores agências de fotografia fundada por HCB, Robert Capa, David “Chim” Szymin, George Rodger e William Vandivert –, Assouline se concentra nos trabalhos documentais de Cartier-Bresson na Ásia, em seus famosos retratos, e principalmente no que ele julgava ser extremamente importante na fotografia.

Henri Cartier-Bresson não aceitava que suas fotos fossem reenquadradas, tinha asco do uso do flash, não permitia que as imagens fossem encenadas, ou seja, que os componentes fossem arranjados para que a foto mostrasse o que seus editores previamente gostariam de publicar. HCB queria ver o mundo conforme ele se apresentava à sua frente, queria registrar a eternidade daquele momento específico que estava fotografando, a alma e espírito das pessoas que retratava. Sem truques, sem mágica, apenas conseguindo congelar a imagem em seu “instante decisivo”, sua mais famosa expressão que define a principal característica de todo seu trabalho.

Cartier-Bresson: O olhar do século é uma biografia que se concentra exaustivamente na vida de seu biografado, o que é perfeito para quem procura justo por isso: fidelidade. Porém, sua leitura pode se mostrar comprometida pelo excesso de zelo do autor em englobar o máximo de temas relacionados ao fotógrafo nesse livro. Mas é inegável que, para aqueles que já nutrem grande admiração pela figura de HCB, ele é mais um documento que atesta toda a sua importância para a fotografia, que leva o leitor a procurar cada imagem do fotógrafo que é citada dentro do livro para aproveitá-las em todos os seus detalhes e suas histórias.

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