livro“A mãe pousou o livro nas mãos do filho. […] O rapaz tinha seis anos, fugiu-lhe a atenção, distraiu-se, mas não se desinteressou pelo livro, apenas deixou de o interrogar enquanto objeto em si, começou a questioná-lo de maneira muito mais abstrata, enquanto intenção, enquanto sombra de um ato.” Não há como falar de Livro sem apresentar o trecho inicial desse romance de José Luís Peixoto. Seria pecaminoso ignorar outra passagem que ele protagoniza: “Se namorares comigo, dou-te um pombo, cem escudos e um livro.” A importância do livro nesta história vai além do próprio objeto, e seu significado é mais do que um monte de páginas reunidas cujo corpo contém letras, sejam elas de que idioma for.

José Luís Peixoto não viveu o tempo de ditadura em Portugal. Quando nasceu, em 1974, a revolução já havia derrubado Marcello Caetano, sucessor de Salazar. Mas esse período conturbado da política portuguesa faz parte da sua história, do passado que carrega antes mesmo de ter nascido. No início dos anos 1960, seus pais imigraram para a França, assim como cerca de um milhão de outros portugueses fizeram. Ao fim da ditadura, retornaram à vila que deixaram em Portugal, e foi ali que Peixoto nasceu. Livro, recentemente lançado no Brasil pela Companhia das Letras, é um resgate desse passado que o autor não viveu, fato que não lhe tira o direito de falar sobre ele. 

Dividido em duas partes, a história inicia com a frase que abre essa resenha: uma mãe deposita nas mãos do filho um livro, pede para que ele espere e vai embora. Até Josué, amigo da mulher, aparecer, o autor narra as percepções desse menino de seis anos chamado Ilídio, que observa o livro que tem em mãos, a vila à sua volta e vê o dia virar noite aguardando pelo retorno dela. Mais adiante, com Ilídio na adolescência, somos apresentados a outros personagens: Cosme, seu melhor amigo e companheiro de trabalhos e travessuras; Galopim, um rapaz ingênuo que cuida de seu irmão deficiente e dos pombos que cria dentro de casa; e Adelaide, jovem sobrinha da dona da loja do vilarejo que desperta o interesse de Ilídio.

É em torno dessas personagens que a primeira parte de Livro se concentra. José Luís Peixoto mostra, com uma sonoridade invejável nas suas frases, como os destinos deles se cruzam e se desencontram entre Portugal e a França. Primeiro vai Adelaide, mandada por sua tia. Atrás dela vai Idílio, à procura da namorada a quem lhe deu o livro – a segunda citação –, e junto dele Cosme, inseparável. Galopim permanece na vila portuguesa assim como Josué, e é através deles que vemos as mudanças pelas quais ela passa enquanto outras histórias nascem e morrem na França. A narrativa nessa primeira parte é totalmente fragmentada. Não só por mudar o foco de personagem a todo momento – não sabemos, ainda, quem é o narrador em terceira pessoa –, se perde em devaneios, idas e vindas no tempo para destrinchar personalidades, amarguras, esperanças e desejos de cada pessoa. Pode se mostrar maçante em alguns momentos, pode fazer o leitor se perder em outros, mas o caso de amor separado pela imigração e a perda de contato, seguido pelo modo que cada um leva a sua vida, não demora tanto a conquistar para essa narrativa.

A segunda parte que justifica todo o esforço de leitura da primeira. Lembre que “livro” não é só um objeto. Livro é o narrador. Filho de Adelaide, assim ele foi batizado, e nessa segunda metade se apresenta abusando da metaliteratura, que transforma Livro quase que numa brincadeira. Ao ler um romance mal escrito sobre a imigração portuguesa para a França, decide ele mesmo contar sua história, embora pareça listar defeitos narrativos do próprio texto que escreveu: “Para lá das constantes referências a autores que ele, nitidamente, desconhece, num exercício fútil de name-drop, esperteza de google, o clímax de insensatez é alcançado numa espécie de autocrítica que, fazendo parte do romance, se refere ao próprio romance. A autorreferencialidade e o pós-modernismo têm as costas largas. Aquilo que transparece é a tentativa de, com esse artifício, levar os outros a dizer que o seu romance não é assim tão mau”. Não obstante existem “jogos” envolvendo o livro dado inicialmente a Ilídio se repetem graficamente, e o leitor adentra na divertida e, ao mesmo tempo, insolúvel proposta do autor: confundir os “livros”, o de Ilídio e o que lemos, a ponto de embaralhar toda a história no tempo.

Recheado de referências a inúmeros escritores clássicos, outros obscuros, que exalte a leitura na vida das personagens Livro pode aparentar ser um romance intelectualóide. Não é. O único personagem que tem essa relação obsessiva com a leitura, aliás, é o mais detestável dentre todos – Constantino, com quem Adelaide se casa na França. A homenagem ao livro está mais ligada ao próprio objeto, a essas páginas que guardam memórias e histórias, que, nesse caso, uniram pessoas e registram lembranças não através das palavras, mas pelo gesto: dar um livro de presente. Momentos esses que ficaram marcados na vida das personagens, ligado à visão delas da História do próprio país.