Por favor, cuide da mamãe, de Kyung-sook Shin

Uma das coisas que mais me incomodam ao falar sobre a mulher é a certeza de que o maior sonho de todas é ser mãe. Como se engravidar uma, duas, dez vezes fosse o grande ápice de sua vida – ou seria ver o filho crescer, se formar, sair de casa, etc. Não duvido que isso traga sim imensa alegria – para os homens também –, mas discordo de que toda e qualquer mulher sonha exatamente com isso. Como se ela não fosse um indivíduo, mas sim um ser obrigatoriamente composto por uma extensão chamada filhos. Após a imagem de mãe concretizada, desvinculá-la disso parece ser ainda mais difícil: a mulher passa a ser aquela pessoa que se dedica apenas à criação, ao cuidado das crianças e do lar, cujas ações visam sempre sua família. Não, uma mulher e uma mãe são mais do que isso, e é difícil enxergar e reconhecer que elas têm desejos que vão além de sua prole. Que elas também pensam – e precisam pensar – em si mesmas.

Kyung-sook Shin é uma escritora sul-coreana, a primeira de seu país a vencer o Man Asian Literary Prize, e também a primeira mulher a conquistar esse feito. Tudo por conta do livro Por favor, cuide da mamãe, um romance plural e intimista que apresenta uma mulher em seu estado de abandono através do olhar de seus filhos e seu marido. Não um abandono premeditado, consequência da negligência de sua família, mas aquele causado pela acomodação, pela falta de gratidão, consequência do egoísmo de cada um e a falta de reflexão sobre o que é ser, e ter, uma mãe.

Park So-nyo é uma senhora que vive em uma aldeia da Coreia do Sul com seu marido, mãe de cinco filhos, e os criou com determinação e prevendo futuros brilhantes: o estudo era obrigatório, tudo para terem uma vida diferente daquela rotina do campo em que ela sempre viveu. Mas essa história não começa nessa aldeia. Park So-nyo está indo visitar seus filhos em Seul para comemorar o aniversário de seu esposo – e o seu, para economizar as datas – e em um momento de descuido dele, se perde no meio da multidão na estação de trem. Ele nota a sua ausência apenas uma estação depois, tarde demais para voltar e encontrá-la parada no mesmo lugar. Isso porque Park So-nyo não é mais uma dessas mulheres que senta e espera: há anos está doente, desorientada, perdendo suas memórias, e sua família dá pouca atenção para seu estado debilitado, muito por insistência da própria mulher.

Superficialmente pode parecer que Park So-nyo é ignorada pela família, mas o incrível nessa história é que ela é uma mulher amada. Amada como mãe, como aquela que cuidou de cada filho como uma verdadeira leoa, trabalhando dia e noite para garantir-lhes a comida e a educação. O problema é que eles nunca olharam para ela além dessa imagem. Quando ela some, seus filhos e marido passam a lembrar daquilo que ela foi, de como a tratavam e do que deixaram de dizer a ela por considerarem não ser necessário agradecer ou exprimir seu amor. Kyung-sook Shin conduz toda a história através desses depoimentos emocionados e arrependidos, cada capítulo o ponto de vista e a declaração de um membro dessa família feito em segunda pessoa – exceto no segundo, dedicado ao seu filho mais velho.

A cada parágrafo Kyung-sook Shin evidencia ainda mais a perda da individualidade de Park So-nyo, que chega ao ponto de sua família inteira desconhecer sua vida nos últimos anos por falta de interesse – deixar de dar um telefonema aqui, não fazer uma pergunta ali, adiar uma visita por meses ou anos. Enquanto procuram por ela em Seul, cada filho se culpa por não ser capaz de se sacrificar por ela nem um décimo do que ela fez por ele. Como um deles se questiona ao perceber que sempre viu a mãe como parte da cozinha de casa: será que mamãe gostava de ficar na cozinha? Será que ela não pensava em fazer outras coisas? Esse é o tipo de pergunta que eles nunca fizeram a si mesmos, muito menos a ela.

A forma com que a autora mostra tudo isso, dando forte evidência para o arrependimento de todos quanto a atenção que davam à protagonista, comove pela forma com que as personagens assumem terem sido indiferentes a vida daquela que sempre zelou por eles independente do que faziam – no caso de seu marido, por exemplo, que eventualmente a abandonava, mas era sempre bem recebido ao voltar, apesar de Park So-nyo nunca depender de alguém além dela mesma para sobreviver. Mais marcante ainda é quando a própria mulher revela como suportou essa vida revelando os segredos que guardou durante os últimos anos, os acontecimentos que a transformaram olhando para todos os seus filhos, vizinhos e outros parentes – o inverso do que o livro vinha fazendo então.

Se Por favor, cuide da mamãe tem um pecado, é o segundo capítulo. Não no conteúdo, mas em sua estrutura. Se todo o livro segue a narração em segunda pessoa – que a meu ver aproxima ainda mais o leitor do drama contado –, não vi motivo para justamente esse ter que ser diferente. Um detalhe pequeno que incomoda, mas não compromete realmente a narrativa como um todo. Kyung-sook Shin mostrou que merece mesmo o reconhecimento que recebeu com Por favor, cuide da mamãe. Ao iniciar a leitura, o leitor pode pensar que a história de Park So-nyo é característica da cultura oriental, geralmente tão diferente da nossa e muitas vezes vista como rígida, mas o livro alcança todas as culturas e pessoas, aproxima ainda mais o oriente do ocidente ao expor uma problemática universal e uma imagem da Coreia do Sul mais atualizada.

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10 Responses to Por favor, cuide da mamãe, de Kyung-sook Shin

  1. djalmafilho says:

    Muito interessante a resenha. Deu vontade de começar a ler o livro agora mesmo. Procurá-lo-ei na minha próxima visita a uma livraria. Só uma observação: acho que, muito mais que sonho, porque sonhos variam de pessoa para pessoa, ser mãe é um impulso natural, puro instinto. Por isso penso que a infertilidade seja para a mulher o que a impotência é para o homem. Abraço.

  2. Taize Odelli says:

    Obrigada pelo comentário, Djalma!
    Vá atrás do livro porque ele vale a leitura mesmo.
    Não concordo que infertilidade é igual a impotência não, já que homens podem ser tão inférteis quanto mulheres (impotência é outra coisa, e está muito mais relacionado ao ato sexual em si, infertilidade não tem nada a ver com isso, né). Faz parecer que a mulher só está aí para ter filhos (e não pode sentir prazer algum), e é para isso que ela serve e nada mais. Óbvio que ser mãe (e pai), está muito mais ligado a um impulso natural, afinal é para isso que nos reproduzimos, não? Sobrevivência e tudo o mais, repassar os genes… E também essa coisa bonita de criar alguém, repassar seus valores, contribuir para o crescimento de uma nova vida. Mas hoje, com tantas mudanças culturais e sociais, não vejo como algo que TODA E QUALQUER mulher deva querer para si, como se isso fosse obrigatório.

  3. Ronnie says:

    Concordo com o djalma quanto a essa “parada” de ser mãe. Conheço algumas mulheres que não o foram e quando chegam aos 50, 60, por mais “bem-sucedidas” que sejam ou pareçam ser, alguma coisa é evidente que esteja faltando. E imagino que seja triste pra elas não poder mudar de decisão a essa altura do campeonato…

  4. Taize Odelli says:

    Escolhas da vida, todas tem as suas… Ainda existe a adoção. Mas aí entra naquele assunto de “não é a mesma coisa, não é o meu sangue” etc etc etc que, ao meu ver, é um preconceito bobo.

  5. djalmafilho says:

    Taize, sua posição faz todo sentido do ponto de vista da vontade consciente, mas antes há o instinto, e ele não está nem aí para nossa vontade consciente.

  6. djalma filho says:

    Só complementando…A questão do instinto não é imperativa. Podemos conviver com eles, sim. Às vezes, sucumbindo; às lutando contra. Mas até mesmo o instinto varia em sua intensidade de pessoa para pessoa. Realmente há mulheres que não vêem mãe. É ótimo que não tenham seus rebentos. Muitas, aliás, poupariam a infelicidade própria e familiar se tivessem coragem para assumirem-se como não-mães. O ponto nevrálgico para mim não é a opção, mas a impossibilidade de se ter filhos. Somente nessa situação é que sentimos (ou não) a intensidade do instinto de procriação. Abraço.

  7. Nathalia says:

    Também fiquei com vontade de ler depois da resenha da Taizze. Além disso, concordo com ela.
    sobre o tal instinto materno: se ele realmente existe, não precisa ser necessariamente voltado a um filho. Pode ser que ele tenha sua expressão em qualquer outro tipo de relação que uma mulher tenha. Ou não. Ter esse instinto não dizer que ela deseje ter filhos. Ainda mais ter essa vontade como o ponto principal de uma vida, como muitas pessoas acreditam ser o caso. Conheço casos.
    O fato é que não acredito que todas o possuam.

  8. Taize Odelli says:

    Que bom, Nathalia! Procure mesmo o livro =)
    E obrigada pelo comentário!

  9. Jane Oliveira says:

    Adorei sua resenha. Lí o livro a uns 8 meses atrás, chorei muito ao decorrer da leitura, pois perdí minha mãe a dois anos, e realmente a gente repensa tudo o que dissemos ou fizemos, pelo menos comigo foi assim, sempre digo que todo filho deveria ler esse livro. Maravilhoso e escrito com uma sensibilidade de emocionar.

  10. Taize Odelli says:

    Obrigada pela visita, Jane!
    Pois é, sempre parece que não falamos tudo o que queremos pras nossas mães. Sempre penso que posso dizer mais vezes que amo ela e etc…

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