festa-na-usina-nuclearEscatológico seria a palavra mais abrangente para definir o livro Festa na usina nuclear, do estreante autor carioca Rafael Sperling. Lembra aquele momento da adolescência masculina em que, querendo mostrar que cresceu e está maduro, milhares de palavras chulas e referências a sexo são despejadas a cada nova frase. Pode-se fazer um paralelo com os jovens escritores, que querendo parecer mais culto e intelectual, abarrotam seus escritos com palavras mirabolantes em desuso que confundem tanto quanto uma letra de música do Djavan. Mas apesar de tudo isso, tanto sexo, sujeira e um conto com frases de efeitos incompreensíveis, Sperling começou bem.

Publicado pela editora Oito e Meio, Festa na usina nuclear reúne 25 contos do escritor que abusa das situações absurdas. Nele há um mundo onde o trabalho é o ócio, e ganha mais aquele que passa a maior parte do tempo dormindo (“Éz”). Há três textos intitulados “Um homem chamado Homem”, em que o Homem procura, em seu fim, o direito de praticar a Não Atividade. Nesses três contos o autor brinca com as definições das coisas: o Homem se casa com a Mulher e tem o Menino, realiza o Trabalho e também pratica o Sentar Em Frente À Televisão, Com A Lata De Cerveja. O clichê dos nomes é utilizado para contar uma história em que a impessoalidade das personagens dá lugar a comportamentos revolucionários.

Mas o que realmente chama a atenção em Festa na usina nuclear é a ousadia do autor em trazer para os contos temas polêmicos e tratá-los de forma fantasiosa, pendendo para o lado da ficção científica, sem medo de ofender o leitor – ou melhor, pouco se importando com isso. Crianças perdem a inocência e vivem em ambientes desestruturados – “Túneis” e “Amores efêmeros 2” –, mulheres parecem voltar a ser simples objetos sexuais – “Minha querida puta” –, homens são animais que só pensam em sexo – “A eterna busca pelo buraco” –, tema, aliás, que está presente na maioria dos textos. São mundos caóticos onde sentimentos estão associados a prazeres imediatos, a violência é corriqueira e as vidas são totalmente deturpadas.

O bom humor de Sperling quebra o choque do leitor pelos cenários escatológicos que ele cria e as personagens impróprias que constrói. Um dos mais interessantes é o conto “Manual de comportamento”, um guia com cinco lições sobre como se portar publicamente em diversos casos que envolvem as necessidades fisiológicas humanas, como se fosse uma Glória Kalil explicando a maneira mais “correta” de ir ao banheiro ou comer diante de outras pessoas. Outro conto que segue essa linha é “Maneiras de se quebrar um ovo”, uma lista que aos poucos toma dimensões fantasiosas sobre a melhor forma de espatifar um ovo que vai além do simples jogá-lo no chão ou quebrá-lo na quina do balcão da cozinha.

Festa na usina nuclear é bom por parecer não levar suas próprias histórias tão a sério. Por mais nonsense e desagradáveis que os contos aparentam ser, a leitura é divertida, assim como deve ter sido prazeroso para o autor reunir tantos absurdos em um livro só e desafiar o leitor a não fazer uma careta para alguma de suas cenas absurdas e violentas. O livro não aparenta querer algo além disso: chocar e fazer rir, aproveitando o campo da ficção para criar cenas incômodas, mas que continuamos a ler por encontrar nelas aquele escape da realidade certinha e segura.