segundos-foraDezessete segundos. É um intervalo de tempo mínimo perto das 24 horas que um dia possui. Mas em alguns casos, pode ser tão longo quanto a eternidade. Podem ser decisivos. O intervalo de dezessete segundos entre o primeiro e o segundo lugar em uma corrida, por exemplo, é muito. Dezessete segundos desacordado ao ser nocauteado em uma luta de boxe, então, significa a derrota. É o que aconteceu com Jack Dempsey em 14 de setembro de 1923 na luta para defender o título mundial de pesos pesados contra o argentino Luis Ángel Firpo, em Nova York. O atual campeão foi jogado do ringue e passou dezessete segundos fora da luta, mas por algum motivo Firpo, El Toro de los Pampas, não foi declarado o vencedor. Dempsey volta ao ringue e, para a surpresa de todos, vence a luta e mantém o título.

Essa é só uma das histórias resgatadas pelo argentino Martín Kohan em Segundos fora, publicado há pouco aqui no Brasil pela Companhia das Letras. O dia 14 de setembro de 1923 foi marcado ainda por outro evento além da disputa entre o norte-americano e o argentino. Nesse dia, o famoso maestro e compositor Richard Strauss apresentou no Teatro Colón a primeira sinfonia de Mahler com a Filarmônica de Viena, um dos principais eventos culturais que Buenos Aires presenciou na época. Ainda há dois jornalistas, 50 anos depois, discutindo esses eventos. Ledesma e Verani trabalham em um jornal na cidade de Trelew, na Patagônia, e escolhem esses acontecimentos como pautas para uma edição comemorativa dos 50 anos da publicação. Um aficionado pelo esporte e pelo episódio Dempsey/Firpo, o outro apaixonado pela música clássica e as obras Mahler. 

Se os dois episódios já parecem distantes entre si, outro elemento incrementa essa história. Escondida na editoria de polícia daquele dia de 1923, Verani encontra uma pequena nota sobre um suicídio ou assassinato ocorrido no Hotel City em Buenos Aires, e a falta de mais notícias sobre o caso desperta a sua curiosidade e o leva a investigar o que realmente aconteceu naquele quarto. Entre esses três acontecimentos, Kohan trabalha um romance com várias vozes que descortinam belíssimas narrativas sobre o boxe, a música clássica e a vida de todas essas pessoas que, por mais que pertençam a mundos diferentes, estiveram ligadas nesse dia.

Martín Kohan intercala narradores e épocas para estruturar o livro. Tudo é mostrado ao mesmo tempo: a queda de Dempsey, as conversas no café do Hotel Touring em que Verani e Ledesma defendem suas preferências, a investigação perpetrada por Roque anos depois, jornalista que nas comemorações dos 50 anos do jornal era apenas um jovem iniciando sua carreira que acompanhava silencioso as argumentações dos outros dois jornalistas. Ainda há o ponto de vista de Gallagher, o juiz da luta, e Donald Mitchell, um fotógrafo que acompanhava o embate. O autor mistura nos dezessete capítulos de Segundos fora as versões do que aconteceu naquela noite nesses lugares separados por milhares de quilômetros e anos: Nova York, Buenos Aires e Trelew.

Os dezessete segundos que Dempsey ficou fora do ringue são estendidos nesses capítulos. Martín Kohan narra todas as sensações do pugilista nesses segundos em que é jogado através das cordas como se tivesse caído no infinito, confuso e desorientado no momento em que é nocauteado pelo argentino e acreditando ter perdido a luta de vez. Os mesmos dezessete segundos são estendidos através das lembranças do juiz que sonhava em ser lutador de boxe e alimentava uma paixão e ódio obsessivos pela mulher que o abandonou; e pelo fotógrafo, esperando pelo instante perfeito para clicar a luta até ser atingido por Dempsey em queda livre. Cada detalhe é intensamente descrito por Kohan, transformando toda a luta em um episódio sensorial, que vai além dos músculos e socos dados no ringue, em que cada emoção é vista em câmera lenta.

E há ainda mais a se destacar no texto do escritor. O leitor é apresentado a Verani e Ledesma apenas por diálogos, dois colegas e amigos que, apesar de anos de convívio, se tratam por “senhor” em discussões calorosas sobre música clássica e boxe: o primeiro pouco se interessa pelo concerto de Strauss, o segundo despreza a fixação do público argentino àquela luta brutal travada entre dois homens. Ledesma é o que mais fala, tentando justificar a superioridade da música, insistindo para que Verani o acompanhe até sua casa e ouça por conta própria a maravilha que foi esse concerto. Verani apenas assente aos argumentos, tentando, por vezes, deturpar o que Ledesma diz a seu favor. Ledesma parece um professor entusiasmado para se fazer entender pelos seus alunos, que nesse caso são Verani e Roque, uma presença silenciosa e observadora.

Mais da personalidade desses personagens é mostrada ao leitor anos mais tarde por Roque, que se empenha na tarefa de descobrir a ligação entre esses fatos: a luta de boxe, o concerto em Buenos Aires e o assassinato/suicídio no hotel. Roque relembra os fins de tarde no Touring em que ouvia os dois jornalistas veteranos, nos conta o fim de suas vidas e nos leva a solucionar esse mistério que tanto os ocupou. A narração que faz em primeira pessoa também é interessante, enquanto entrevista personagens que descobre manter ligação com esses episódios, seu relato é interrompido pelas falas daqueles que interroga entre parênteses, cortando o que diz para então retornar ao raciocínio que empreende.

Segundos fora pode parecer labiríntico, e de certa forma é. O leitor é rapidamente tragado para dentro da trama e é levado a saborear cada frase com cuidado, devagar, para não perder nenhuma das sensações descritas por Kohan, ou então para não se perder na linha de raciocínio de Ledesma enquanto expõe sua paixão pela música clássica e detalhes curiosos que destrincha sobre a luta em Nova York. O leitor absorve cada momento como se fossem histórias distintas, esquecendo-se até que devem se unir no final. E a cada vez que lembra disso, se empenha ainda mais na leitura para tentar descobrir como essas histórias irão se juntar no fim. Contudo, o desfecho é o que menos importa ao encerrar a leitura. A escrita de Kohan parece muito mais interessante do que o simples final que teve.