Resenhas

Sétima do singular, de Diego Grando

setima-do-singular“Eu faço a vida como quem tem sorte / e não prática / como quem deseja o fruto / e o tendo à mão / não colhe / como quem só espera da lástima / que evapore.” Num verso de degustação da contracapa de Sétima do singular, livro de Diego Grando publicado pela Não Editora, já pude perceber uma identificação que é difícil eu ter com a poesia. Ao ler “Hiato”, de onde é tirado esse trecho, a confirmação é de que sim, essas foram as palavras que mais me disseram algo, e assim permaneceu até o fim da leitura. Não quer dizer que apenas a contracapa já sirva como contato com os poemas dele, abrir o livro vale à pena. Assim como podemos escolher uma roupa ao vê-la na vitrine, não significa que olhar o que mais a loja tem a oferecer não possa ser recompensador.

Sétima do singular é dividido em sete partes, cada uma delas com sete poemas. Essas partes são condicionadas a um tema, todas as poesias dentro de uma coisa só: o ser poeta, as relações, o cotidiano, as profissões ordinárias – e por ordinárias se entende “frequente”, “comum” – o ser (e não ser) fumante. Curtos, mas carregados com aquilo que o poeta e o leitor podem ter em comum em experiência: o que um diz se encaixa no que o outro sente. E para quem, como eu, não tem a poesia em alta conta e chega a considerá-la intragável, Diego Grando mostra o contrário: a poesia se entende, sim, e ainda conta histórias.

Histórias essas visíveis em todas as partes, como na última, “Nó. Nós”, com poemas sobre relacionamentos. O vazio que fica na cama depois de uma visita em “Casas separadas”¸ um banho em dupla num pequeno espaço enevoado pela água quente em “Pantomina”, observar a mulher se vestir em “Fuga ritual”. São só alguns dos poemas em que as palavras rimadas e harmônicas do poeta se transformam em imagens na cabeça de quem lê, ou em uma literatura mais longa para quem se permitir imaginar outros detalhes da história.

A questão do tema é ainda mais clara em “Sfumati”, o grupo de poemas que se dedicam a falar do cigarro, do ato de fumar ou não. “Fumar e preencher os vazios / com fumaça em lugar de palavras / me tornaria menos alheio / (quem sabe mais humano) / ao mundo visível”, escreve em “Psicologia de um não-fumante”. O não-fumante parece alheio a uma vida social, separado daqueles que seguram constantemente um cigarro entre os dedos, e na falta do vício – como diz em “Abstinência”, “Aquele que não fuma, é evidente, / precisa compensar de uma maneira ou outra / a falta que isso faz diariamente.” – se torna um viciado à parte em “Passivo ativo”: “Em matéria de cigarro / sou fumante / passivo: / recebo o que há de indigno e nocivo e / transformo o de-outros / em causa própria / coisa minha / muito mais minha do que fosse / impura e congênita / mentira minha”.

Vale destacar ainda “Et Cetera E Tal”, a parte em que os poemas se voltam para poeta e seu trabalho. “Manual do poeta sem manual” mereceria ser colocado todo aqui, mas só o começo já mostra o que esse grupo reserva: “da compreensão se deve desviar / assim como da imagem de erudito / se quer o poeta ser um pop star”. Entre outros que chamam a atenção ainda está “Método: depoimento”, declamado por Marcelo Noah em um dos vídeos produzidos pela Não Editora para o lançamento do livro:

Se a poesia ainda assusta, não entretém, não encanta, talvez Sétima do singular sirva para desmistificar essa imagem, o que já pude ver em 25 Rua do Templo, o livretinho de Diego Grando com dois poemas sobre Paris. Seus poemas podem não ficar na memória, mas ao ler novamente um verso que for, volta a lembrança de uma boa leitura, do momento em que essa poesia se encaixou com alguma outra coisa, uma lembrança de um livro ou experiência de vida, e que ali ela fez todo sentido.

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