Resenhas

Bonsai, de Alejandro Zambra

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“Esta é, então, uma história leve que se torna pesada. Esta é a história de dois estudantes devotados à verdade, a dispersar frases que parecem verdadeiras, a fumar cigarros eternos e a se fechar na violenta complacência dos que se creem melhores, mais puros do que o resto, do que esse imenso e desprezível grupo que chamam de o resto.”

Bonsai é um livro sobre um relacionamento que nasce, se aproveita do que cada indivíduo tem a dar e morre. A morte não é nenhum adiantamento da história, na primeira frase Alejandro Zambra alerta o leitor desse fim: “No final ela morre e ele fica sozinho, ainda que na verdade ele já tivesse ficado sozinho muitos anos antes da morte dela, de Emilia.” Em uma só frase os protagonistas se apresentam, assim como toda a sua história. O que mais o livro terá a dizer se conhecemos, assim de supetão, tudo o que acontece? Não muita coisa, e por isso mesmo ele é breve. O primeiro livro do chileno, que estará na Flip desse ano, é um desses romances curtos de quarenta páginas que estão na moda, como ele mesmo coloca no meio da trama (na edição brasileira da Cosac Naify e sua diagramação diferenciada ficou com pouco mais de 90).

Julio e Emilia são dois estudantes chilenos de Letras, que se conhecem em uma noite de estudos transformada em festa, e nessa noite dormiram juntos pela primeira vez. A relação se sustenta em torno dos livros que leram e não leram. Julio diz para Emilia que leu Marcel Proust. Emilia diz para Julio que também o leu. Mas nenhum dos dois fez a leitura de Em busca do tempo perdido. Porém leram muitas outras coisas juntos, inclusive, ainda mantendo a farsa, Proust. Tórridas noites e dias de sexo foram entabuladas por entre os livros, cada transa precedida da leitura de um trecho de um romance ou de um conto – a tudo davam um ar erótico.

Numa dessas leituras o casal se depara com Tantalia, conto de Macedonio Fernández sobre um jovem casal que utiliza um bonsai como símbolo de sua relação: tarde demais, os jovens percebem que o amor acabará quando a planta morrer. O conto, inicialmente aclamado, deixa um gosto perturbador em Julio e Emilia que, assim como os protagonistas de Tantalia, percebem que o amor entre eles – ou o desejo, seja lá o que ambos mantinham – estava morrendo. O casal se separa, Julio permanece no Chile, Emilia vai para Espanha e lá morre.

Alejandro Zambra é breve como se estivesse escrevendo a sinopse de um roteiro. Garoto conhece garota, eles se envolvem, se separam, fim. Contudo, a história não termina nesse “fim”, mas começa dele. Bonsai fala do que restou de Emilia e Julio depois do término, em como ambos se relacionam com a lembrança desse romance que viveram, o que permanece e o que cada um ainda afeta no outro. Parece simples demais, mas o livro guarda suas surpresas, reveladas conforme o que Julio e Emilia vivem se encaixa no que o próprio leitor já teve.

Zambra usa a metaliteratura para dar um tempero ainda mais incomum à história. Depois de formado, sem muitas opções de emprego, Julio é indicado a um escritor, Gazmuri, a datilografar seu novo romance sobre um homem que descobre que o amor de sua juventude morreu. Assim como em Tantalia, o casal do escritor cuidava de um bonsai. A história de Julio, o romance de Gazmuri e o conto de Macedonio Fernández se misturam em uma coisa só. Bonsai pode ser tanto a história de Julio como o livro que Gazmuri escreveu, uma invenção da mente solitária do protagonista ou realmente uma história que ele viveu. Ou, simplesmente, uma forma de deixar bem claro ao leitor que, para essas personagens, a vida e a literatura se confundem, estão intrinsecamente ligadas uma a outra.

Bonsai é uma prova de que tamanho não caracteriza qualidade, que uma história breve pode ser tão reveladora, encantadora e complexa quanto um romance de 500 páginas. Em duas horas de leitura, todas as nuances de uma história de amor, uma história triste e comum, se revelam e resumem o destino e o sentido de muitas relações. “Qual o sentido de ficar com alguém se essa pessoa não muda a sua vida? Disse isso, e Julio, estava presente quando disse: que a vida só tinha sentido se a gente encontrasse alguém que mudasse, que destruísse sua vida”. O que resta do amor de Julio e Emilia é isso, uma destruição, o fim de uma vida e a incerteza que se instala em outra. Um fim triste com uma beleza rara de encontrar em histórias tão curtas.

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One thought on “Bonsai, de Alejandro Zambra

  1. Reli esse livro hoje. Gosto bastante dele, mas por algum motivo não sei dizer o porquê. A história começa de uma forma tão leve, depois vai tomando um ar mais sério e real (talvez angustiante) que quando termino de ler fico com as cenas na cabeça durante um bom tempo sabendo, mas não querendo, ver essa destruição dos dois que me parece tão real.

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