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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Contra o dia, de Thomas Pynchon

contra-o-diaUm dos meus primeiros contatos com Thomas Pynchon foi através de Como funciona a ficção, do crítico James Wood. Segundo ele, Contra o dia é um exemplo de uma fraqueza no romance pós-moderno: “Não existe nada mais setecentista do que o amor de Pynchon pela multiplicação picaresca do enredo, seu arremedo de pedantismo que, ao mesmo tempo, é um amor pelo pedantismo, seu costume de apresentar personagens rasos dançando em cena por um instante, para despachá-los logo em seguida, seu gosto vaudeviliano por nomes bobos, piadinhas, reveses, disfarces, erros farsescos etc.” É mesmo isso o que Pynchon faz, seu livro é recheado de personagens praticamente incontáveis, que se cruzam, somem e reaparecem conforme os caprichos do autor. Mas Wood reconhece: “Há como extrair prazer dessas telas agradáveis e cheias de gente, e há trechos de grande beleza”. Muitos trechos.

O segundo contato com o autor veio através do conto “Esse maldito sotaque russo”, publicado em A página assombrada por fantasmas, do Antônio Xerxenesky. O nonsense do conto (um detetive à procura de Thomas Pynchon que descobre que seus livros estão sendo escritos, na verdade, por sua amante russa que é nada mais nada menos que Maria Sharapova) me fez esquecer totalmente da crítica de Wood. Quando a Companhia das Letras lançou a tradução do livro, aquela máxima do “ame ou odeie” despertou vontade de ler e ver para que lado eu penderia: foi para o “ame”.

Contra o dia reúne um número gigante de personagens, conflitos e cenários. Começa em 1890, em Chicago, com os Amigos do Acaso em seu aeróstato, o Inconveniência, visitando a Exposição Colombiana. A conquista para o livro foi imediata: os membros desse grupo incomum são polidos, conversam entre si com frases rebuscadas e um humor pastelão que encanta o leitor de imediato. Mas a trama real gira em torno do embate entre os anarquistas e os ricos proprietários a partir do assassinato de Webb Traverse, especialista em explosões e um dos maiores anarquistas norte-americanos, a mando do investidor Scarsdale Vibe. Costurando-se entre as diversas histórias de Contra o dia, a busca pela vingança dos filhos de Traverse permeia o livro até o seu final, uma presença constante nos desejos dos irmãos mesmo enquanto vivem em lugares distantes levando vidas diferentes.

Toda essa trama é ambientada em um mundo em constante descobrimento e deslumbramento: a eletricidade move novas invenções, incentiva a construção e o estudo de novas teorias, movimenta discussões e passagens com ares steampunk narradas com incansável detalhismo. Artistas, matemáticos, cientistas, inventores, xamãs, organizações, soldados… É uma gama enorme de pessoas que se relacionam, se encontram e desencontram, vivem uma vida diferente a cada capítulo. No Colorado, no México, em Veneza, em Londres ou Paris, até em dimensões paralelas. Uma história onde nada parece ter relação com nada, mas ao mesmo tempo tudo faz sentido dentro desse universo construído por Pynchon, um lugar onde a ficção parece ser mais crível do que a própria realidade colocada dentro do livro através das inúmeras referências que usa.

Contra o dia é um romance experimental. As personagens se desenvolvem conforme suas histórias se mostram mais interessantes, mais rentáveis, ao acaso. Páginas e mais páginas podem, por exemplo, acompanhar as jovens Yashmeen e Dally, esquecendo-se totalmente dos irmãos Traverse e dos Amigos do Acaso – e, para minha infelicidade, de Pugnax, o cão que lê Henry James – até que eles entrem em suas vidas e as histórias se misturem. E logo podem ser deixadas de lado para que o foco da narrativa se volte novamente para a América, os conflitos no México, para a Europa e a Guerra, com o leitor no meio desse vai e vem de lugares e pessoas.

Essa poderia ser uma história sem fim. Faz pouco que ouvi que um texto – livro, reportagem, roteiro – fica pronto apenas quando o prazo de entrega acaba e seu autor é obrigado a entregá-lo, no limite de sua publicação, não dando espaço para nenhuma outra mudança. Tenho a impressão de que esse poderia ser o caso de Thomas Pynchon. Quando chegou a hora de entregar o manuscrito – ou se cansou de tudo –, simplesmente colocou o ponto final nas mais de mil páginas de seu romance, encerrando abruptamente as diversas tramas que compõem o livro. Pelos hábitos do autor, o recluso de Nova York que ninguém vê, não me surpreenderia dele ter agido exatamente dessa forma.

A leitura de Contra o dia pode ser considerada um jogo. Um game que exige atenção e dedicação exclusiva para que se encontre todas as referências e perceba os pequenos detalhes do livro. O que Pynchon faz não parece ter realmente um sentido. É como se ele houvesse pensado parte da trama, criado as personagens, e aí desenvolvido suas histórias com aquilo que lhe dava na telha, testando até onde elas se sustentam. E o que move a sua leitura? Ora, a simples curiosidade de saber como o autor resolve os problemas que coloca. Se quiserem uma dica sobre Contra o dia, direi para ler o livro sem medo, sem se preocupar em decifrar todas as referências, até porque isso exigiria muito tempo e pesquisa para encontrar tudo o que há de real dentro da ficção. Conhecê-las enriquece sim a leitura, mas uma coisa ou outra passar em branco não tira em nenhum aspecto o brilho da obra.