Resenhas

Fuga do campo 14, de Blaine Harden

fuga-do-campo-14A Coreia do Norte sempre foi um desses países esquisitos que pouco conhecemos. O que todos sabem é que é uma nação fechada, que foi governada por um homem no mínimo incomum – com todas as suas esquisitices – e possui forte educação militar – quem nunca viu as marchas sincronizadas do exército coreano em paradas cívicas no YouTube não deve ter ouvido falar desse país mesmo. A Coreia do Norte foi foco da imprensa depois da morte de Kim Jong Il no final do ano passado, com todas as matérias contestando a veracidade do choro dramático da população pela perda de seu líder. A política norte-coreana, para o senso comum, sempre foi alienante. E se isso já era uma ideia horrível de se conceber, pior ainda é conhecer outra face autoritária e manipuladora do país.

Antes de ler Fuga do Campo 14: a dramática jornada de um prisioneiro da Coreia do Norte ruma à liberdade no ocidente, de Blaine Harden, não havia ouvido falar dos campos de trabalho forçado para prisioneiros políticos mantidos pelo governo norte-coreano. Segundo a Coreia do Sul, o país vizinho mantém seis desses campos que existem há pelo menos 50 anos – e que a Coreia do Norte insiste dizer ser uma invenção das potências ocidentais para tiranizar o país. Pensem nos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial: as pessoas são levadas até eles sem saberem o motivo. São obrigadas a trabalhar e viver em situações precárias, sem roupas decentes, sem direito a nada e com escassa comida, sendo repreendidas ao cometerem qualquer erro sequer. Ou, segundo os 10 mandamentos do Campo 14, o mais terrível e controlado de todos os campos, essa repreensão vem em forma de balas: a qualquer transgressão, a pessoa será “fuzilada imediatamente”.

Em Fuga do Campo 14, o jornalista Blaine Harden conta a história de Shin Dong-hyuk, que nasceu dentro desse campo de concentração. Até hoje, ele é o único nascido dentro dessa imensa prisão a ter fugido com vida dos guardas norte-coreanos. Aos 23 anos de idade, em 2005, ele atravessou a cerca de arame de alta voltagem e escapou para a liberdade, para a China, com o objetivo de ir viver na Coreia do Sul. E o que motivou sua fuga não foi o anseio pela liberdade, ele não tinha conhecimento desse conceito. Foi a fome. Ele não só não conhecia a liberdade como também não sabia o que era família, felicidade ou amor. Shin vivia conforme as regras do Campo 14: delatava seus companheiros, sua família, em troca de mais comida e menos agressão, pela sobrevivência, e considerava isso certo, o fazia sem remorsos. “Ao contrário dos sobreviventes a um campo de concentração, Shin não foi arrancado de uma existência civilizada e obrigado a descer ao inferno. Ele nasceu e cresceu lá dentro. Aceitava seus valores. Chamava-o de lar.”

Blaine Harden conta a jornada de Shin através de sua própria humanização. Leva ao leitor todo o horror de crescer em um ambiente extremamente autoritário, onde Shin viu uma colega de seis anos de idade ser espancada até a morte por um guarda-professor, assistiu de camarote à execução pública de sua mãe e seu irmão mais velho, saía pelos campos em busca de ratos ou restos de milho em fezes de animais que pudesse comer. Mas essa, para ele, era a vida normal, pois não conhecia nada do que existia fora das cercas elétricas do Campo 14. Nem tinha conhecimento do motivo de estar preso nem do que era o seu próprio país. Como Harden enfatiza, Shin pelo menos não teve que passar pela “lavagem cerebral” sobre seu governo e seu líder a qual todos os norte-coreanos são expostos.

O jornalista desenrola todos os mistérios e horrores da vida de Shin contextualizando os momentos pelos quais a Coreia do Norte passava nos anos 1990 e 2000. Os conflitos com os países vizinhos Coreia do Sul e China, a propaganda anti-EUA que fazia para seu povo, a grave crise de escassez de alimentos que deixou toda a população desnutrida e vivendo miseravelmente em todo o país, contextos que até auxiliaram para a fuga de Shin – ao fugir, ele era só mais um norte-coreano mal vestido e mal alimentando zanzando por aí, como todos os outros. Não só através dos relatos de Shin recolhidos com extensas entrevistas, Blaine Harden também traz ao leitor depoimentos de outros refugiados ou desertados norte-coreanos que vivenciaram o horror de viver em um campo de concentração e que procuram denunciá-los para todo o mundo, de pessoas que os auxiliam e lutam pelos direitos humanos, confrontando a Coreia do Norte.

Fuga do Campo 14 é um livro de mão dupla. Enquanto ele descortina para o leitor o que se passa dentro da Coreia do Norte, todos os seus horrores e exageros, ele traz um personagem que faz o caminho contrário, que toma conhecimento de um mundo “civilizado”, que o respeita e quer ajudá-lo. Tão difícil para Shin quanto fugir do Campo 14 é se adaptar a esse mundo que, antes da fuga, nunca tinha visto nem sequer havia concebido em sua imaginação. O choque cultural e o trauma que o Campo deixou nele são irreparáveis, mas possíveis de conviver. Por mais difícil que isso seja, é o que Shin vem fazendo desde sua fuga: reaprender o que é a vida, o que existe nela, deixar de ser um “animal” para se tornar um ser humano. Para nós, que crescemos e vivemos em um mundo globalizado, onde as informações circulam livremente e é fácil ter acesso a qualquer assunto, é difícil acreditar que existe um país, vários países, que vivem num regime tão fechado, ainda mais digerir o fato de que pessoas nascem e, mais ainda, morrem em lugares como o Campo 14. Com seu livro Blaine Harden expõe mais um lado obscuro da Coreia do Norte, denuncia o que o país tem de mais intragável, mas também mostra que é possível se livrar de tamanho horror. 

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