Resenhas

Ulysses, de James Joyce

ulysses“O mais belo livro publicado em nossa terra durante a minha vida. Faz pensar em Homero”. Essa não foi uma frase de um crítico literário ou um escritor elogiando seu par. Está dentro de Ulysses, falando sobre o próprio livro, uma bela brincadeirinha de seu autor, ou assim me pareceu. Começar a ler o “clássico dos clássicos” vem acompanhado de certo nervosismo. Ulysses foi o livro do século XX, o grande romance, a obra que “tem-que-ser-lida-ou-você-não-conhece-literatura-de-verdade”, e que você “tem-que-entender-ou-é-um-analfabeto-funcional” – ou então que “é-difícil-pra-caramba-só-finge-que-entendeu-e-fala-que-leu-para-não-pegar-mal”. Não deve ser o livro com a melhor fama entre os leitores, mas é o mais admirado – algo meio tirânico de se pensar. Quando saiu a notícia de que uma nova tradução da obra-prima de James Joyce seria lançada no Brasil, o contrário tomou conta dos discursos na internet. Ulysses não é difícil, disseram. É só se deixar levar e aceitar o que o labiríntico dia 16 de junho de 1904 tem a oferecer. Foi com isso que decidi enfrentar o catatau de James Joyce, sem medo e sem me preocupar com o que ganharia com essa leitura.

A nota do tradutor Caetano W. Galindo que abre a edição lançada pela Penguin-Companhia e a introdução de Declan Kiberd me deixaram ainda mais animada a começar Ulysses. O livro, aliás, parecia ser tratado como uma entidade: é sempre referido como “O Ulysses”, como se o grandioso volume de mais de 1000 páginas que tinha em mãos fosse um ser tomado de alma. Não era simplesmente “um livro”. Mas apesar disso, o que Galindo e Kiberd tinham a dizer sobre ele – o primeiro sobre o traduzir, o segundo sobre o que ele aborda – tornaram o começo da leitura ainda mais tranquila. Por mais que tenha me tomado um tempo precioso de leitura, Ulysses foi sim prazeroso de ler, e cada minuto gasto me valeu à pena.

Eu tinha uma visão do livro que só pude mudar ao ter contato com ele de verdade. Pensava que, além dele ser difícil e incompreensivo daquele jeito que todos falam tinha uma estrutura totalmente diferente. Imaginava, por exemplo, que apenas Leopold Bloom o narrava, não fazia ideia das inúmeras formas de detalhar esse dia pela cidade de Dublin e nem que Stephen Dedalus e Molly Bloom fossem ter alguma voz dentro da trama – isso é o que dá ler tudo por cima. Só conhecia, na verdade, a certa falta do uso de vírgulas, de pontos finais e muitas palavras “sim” empregadas por Joyce na última parte do livro.

Tantas pessoas já se debruçaram sobre “o Ulysses” que não resta muito o que dizer sobre ele além de comentar minha própria experiência de leitura. Enquanto devorava Ulysses, cada movimento captou o olhar para algo comum, mas extraordinário na maneira com que James Joyce o trata. Tudo o que o olho das personagens vê e percebe é transformado em monólogos interiores, em reflexões, uma narrativa cortada pelas idas e vindas do pensamento de Bloom, Dedalus e Molly. De discussões sobre Shakespeare à nacionalidade irlandesa; da venda de um anúncio para um jornal à contemplação das águas do mar – ou das pernas de uma jovem que levam até o desejo sexual. Um romance revirado pelo vai-vem da mente e alucinações alcoólicas. Para aproveitar a leitura, basta se deixar ser absorvido pelo texto de Joyce para, pouco a pouco, se pegar pensando no mesmo ritmo de Bloom.

Não deveríamos achar o fluxo de consciência de Joyce tão complicado. Todos divagamos de forma tão fora de ordem quanto Bloom, Molly e Dedalus. Se, ainda assim, Ulysses é complexo, nós o somos em pé de igualdade, não fazemos sentido a maior parte do tempo. Isso não é, de forma alguma, ruim, é o que somos, como funcionamos. Tente escrever sem nenhuma organização tudo o que está passando pela sua cabeça, as pequenas percepções que tem enquanto lê esse texto na forma que elas surgem. Sem edição, organização, tudo é um caos. Ulysses é propositalmente uma mente, um dia, sem edição. Leopoldo Bloom é mais alguém igual a nós. Joyce só parou para detalhar esse dia em sua vida e mostrar o quanto ele é confuso e grandioso e cômico, usando todas as estruturas e vozes que podia para narrar esse dia. Também divagamos e andamos pelas ruas como as personagens de Joyce, logo, no meio disso tudo, o que não faz sentido é ter medo de Ulysses.

O monólogo de Molly Bloom que fecha o livro transformou de vez Ulysses em uma obra admirável, e não é por menos que elegi ser minha parte favorita. A liberdade que ela se dá em falar do marido, da filha e dos amantes sem pudores, de ser mulher e sentir desejos e querer saciá-los, de ver em Bloom um companheiro que não exatamente faz o papel de corno manso, mas que entende o que ela quer – e que, também, não é nenhum santo. Molly retrata a angústia do monólogo anterior que os ansiosos têm antes de dormir, que é sem sentido, confuso e atrapalha o sono, que diz a si mesma tudo o que gostaria de estar gritando na rua para os outros.

Os pensamentos de Bloom e as conversas dos quais participa ou entreouve são discussões e reflexões sobre cultura, conhecimento, relacionamentos, enfim, tudo o que envolve nossa rotina. São olhares curiosos sobre os aspectos cotidianos que perpassam a mente de todos de maneira imperceptível, ou tão frequentes que mal damos importância. Mas postas no papel por Joyce se tornam um documento do romance completo, com múltiplas vozes e questionamentos de sua época que ainda hoje continuam atuais e dificilmente se esgotarão.

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One thought on “Ulysses, de James Joyce

  1. O Ulysses continua lá na estante, sempre me encarando com deboche por causa da minha falta de coragem de pegá-lo para ler. Falta de coragem essa que eu escondo por trás da desculpa de que ainda não me sinto preparada para o 16 de junho. rs

    Foi muito animador saber que ele nem é tão monstruoso como a imagem já construída a seu respeito… Lerei em breve (uma promessa pessoal, eu acho).

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